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A maior experiência da vida 

O Diário - 5 de fevereiro de 2026

A maior experiência da vida 

Claudia Lima

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          Todos os dias convivemos com a morte. Encerramos ciclos, fechamos capítulos, assistimos ao fim silencioso de pequenas existências. Morrer, afinal, é a cessação de algo: a interrupção definitiva, a ausência que não retorna. Diariamente um dia se despede para que outro comece. Ainda assim, a palavra “morte” permanece quase impronunciável — e, quando ousa ser dita, surge confinada a velórios, lutos e silêncios constrangidos.

Há nisso um equívoco profundo. Nosso olhar insiste em atribuir à morte apenas o peso do desvalor, do medo e da perda, quando, paradoxalmente, ela talvez seja a mais radical e decisiva experiência humana. Se ampliarmos a lente, se nos permitirmos enxergar para além do imediatismo da dor, perceberemos que a finitude é a grande entrega da vida. No instante final, devolvemos tudo o que acumulamos: filhos, casas, objetos carregados de memória, bens, nomes, histórias. Nada permanece conosco.

Entregamos tudo para atravessar uma experiência absolutamente desconhecida. Os que partiram nos ensinam isso — não por palavras, mas pelo gesto último. Ensinam que esse momento também pode ser vivido. Que é possível viver a própria morte, assim como um dia vivemos o nascimento: essa experiência igualmente indizível, inaugural e definitiva.

A partida nos obriga à despedida de tudo o que fomos e do que acreditamos possuir. E é justamente por isso que ela é grandiosa. Aos que ficam, deixamos a continuidade: a tarefa de seguir, transformar e reconstruir o que foi iniciado. Em nossas mãos, nada levamos — nem sequer a nós mesmos.

Talvez por isso a morte seja o maior momento de nossas vidas: porque nela experimentamos, pela primeira vez de forma absoluta, a humildade radical de não possuir coisa alguma.

Claudia Lima