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A menina dos olhos verdes

O Diário - 30 de dezembro de 2025

A menina dos olhos verdes

KARLA ARMANI, historiadora e cadeira 7 da ABC - @profkarlaarmani

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            Esses últimos dias do ano são um convite à poesia e ao olhar para o futuro. Com esse sentimento, me deparei com o poema “Esperança” de Mário Quintana, publicado na obra “Nova Antologia Poética”. Por certo, a atmosfera do final do ano torna esse pequeno texto tão profundo, afinal é nessa época que tudo em nós se acalma, se prepara e renasce. E o que é o final do ano a não ser um chamado ao renascimento?

            No poema de Quintana, a esperança é uma “velha e louca” que mora no 12º andar do ano e se atira do alto depois de cessarem todos os recursos. Ocorre que quando é encontrada na calçada, ela se torna mais uma vez criança, uma meninazinha de olhos verdes, pronta a explicar tudo de novo e a dizer, bem devagarinho, seu nome: es-pe-ran-ça. E assim se inicia o novo ciclo, com ela novamente menina, a subir ao 1º andar do ano. Porque a esperança é sempre assim: persistente. Ela não é triunfal, é apenas presente. 

            Fiquei a refletir sobre o motivo de ela ser retratada como uma menina de olhos verdes e percebi que essa configuração vem da literatura de tempos antigos. No Ocidente, Hesíodo, por exemplo, em “Os Trabalhos e os Dias”, ao descrever o mito de Pandora, no qual a abertura da caixa liberta os males do mundo, conta que apenas Elpis é a única que ali permanece (para a humanidade não sucumbir – ou não?). Mas ele não descreve sua aparência. Talvez seja por isso que poetas ao longo dos séculos quiseram lhe dar um rosto e uma cor (seja nos olhos, nas roupas ou em acessórios conforme a tradição ocidental).

            O verde, desde a Antiguidade, simboliza aquilo que ainda não está maduro ou pronto, mas que é uma promessa de vida. Ele é a cor dos brotos e das plantas, por isso sugere renascimento, cura e continuidade. Os olhos são o portal para o futuro, de onde se vislumbra o que ainda vai nascer. E a menina é o símbolo da juventude - já que não conhece o desfecho de nada; da persistência quando se desconhecem as garantias; enfim, da fé no porvir, no que virá.

            Então, que a nossa menina dos olhos verdes, antes velha e louca, esteja presente na passagem de mais um ano que se anuncia, pois apenas ela é quem tem paciência de nos explicar tudo de novo. Sempre e sempre. 

KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e cadeira 7 da ABC / @profkarlaarmani