A Nova Configuração da Igreja Local: Entre a Territorialidade e a Afetividade
Diocese de Barretos - 8 de janeiro de 2026
Por Pe. Daniel Canevarollo, Vigário Paróquia São Benedito, Barretos.
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A Igreja, ao longo de sua história, sempre se organizou a partir de estruturas concretas que possibilitassem o anúncio do Evangelho e a vivência comunitária da fé. Entre essas estruturas, a paróquia territorial constituiu-se como forma privilegiada de presença eclesial, especialmente a partir da Idade Média. Contudo, nas últimas décadas, profundas transformações sociais, culturais e tecnológicas têm provocado uma reconfiguração do modo como os fiéis se vinculam à Igreja local, diocesana. Emergem, assim, novas formas de pertença eclesial, marcadas menos pela territorialidade geográfica e mais pela afetividade, afinidade espiritual e identificação pastoral. Esse deslocamento levanta questões relevantes: o que define hoje a Igreja local? Como articular território e vínculo afetivo sem diluir a identidade eclesial? Trata-se de uma crise da paróquia ou de uma oportunidade de renovação? A territorialidade sempre teve um valor teológico e pastoral fundamental. A paróquia territorial expressa a encarnação da Igreja em um espaço concreto, onde o povo de Deus vive, trabalha e constrói relações. Não se trata apenas de uma divisão administrativa, mas de um sinal sacramental da proximidade de Deus com seu povo. A Igreja local, organizada em torno do bispo e das comunidades paroquiais, garante a universalidade da salvação, pois todos são acolhidos independentemente de afinidades pessoais; a estabilidade pastoral, assegurando cuidado contínuo; a visibilidade da comunhão, evitando fragmentações eclesiais. Nesse sentido, a territorialidade protege a Igreja de se tornar um agrupamento seletivo ou meramente voluntarista. A contemporaneidade, marcada pela mobilidade urbana, pluralidade de ofertas religiosas e cultura digital, alterou profundamente as formas de pertença. Muitos fiéis não se sentem mais vinculados exclusivamente ao território onde residem, mas à comunidade onde se sentem acolhidos, escutados e espiritualmente nutridos. Essa pertença afetiva manifesta-se quando os fiéis escolhem comunidades com as quais se identificam espiritualmente; a liturgia, a pregação e o estilo pastoral geram vínculos profundos; relações interpessoais se tornam determinantes para a permanência na comunidade; o ambiente digital amplia o sentido de proximidade e acompanhamento. Não se trata de um fenômeno superficial, mas de uma resposta a necessidades humanas e espirituais reais, que desafiam a pastoral tradicional. A passagem de uma Igreja predominantemente territorial para uma Igreja também marcada pela afetividade gera tensões que não podem ser ignoradas. Entre os riscos, destacam-se: a fragmentação da comunidade eclesial; o enfraquecimento do sentido de pertença objetiva; a criação de “comunidades de consumo religioso”; a personalização excessiva da fé, centrada em lideranças carismáticas. Quando a afetividade se torna critério exclusivo, corre-se o risco de esvaziar a dimensão sacramental e institucional da Igreja, transformando-a em um espaço de afinidades subjetivas. Por outro lado, a afetividade não pode ser reduzida a um elemento secundário. A fé cristã é essencialmente relacional: Deus se revela como amor, e a Igreja é chamada a ser sinal desse amor no mundo. A pertença afetiva revela o desejo legítimo de comunhão, cuidado e proximidade.




