Esqueci minha senha
A permanência dos rituais

O Diário - 2 de julho de 2026

A permanência dos rituais

Cláudia Martins de Lima. Cirurgiã-Dentista, Especialista em Ortodontia, Mestranda em Odontopediatria e Ortodontia, Membro do Conselho Curador da FEB, Dentista do Bem

Compartilhar


Quem nunca enrolou brigadeiros na vida? Primeiro passamos manteiga nas mãos, depois pegamos com uma colher pequenas quantidades de brigadeiro já feito e o enrolamos, depois passamos no granulado. Colocamos na forminha. É um ritual. Quem é tia ou mãe já passou por esse momento incontáveis vezes ao longo dos aniversários dos filhos e sobrinhos. E dentro desse momento cabe tanto afeto! Fazer o brigadeiro para qualquer aniversário é iniciar a preparação da celebração da vida de quem amamos. Eles contam as histórias de vida da mãe, de cada um dos sobrinhos, dos irmãos e dos filhos. A festa começa com a ideia dos doces e o brigadeiro não pode faltar. Eles não são feitos por profissionais, nem são perfeitos, mas tem a medida exata do amor que se sente enquanto mexemos delicadamente a misturinha boa do chocolate, leite condensado e manteiga na panela. Enquanto enrolamos os brigadeiros revivemos momentos: o beijo dado no rosto, a viagem pro litoral em família, as noites de natal juntos, os almoços em família. Somos rodeados por todos que moram em nós. Quando a festa acontecer e cada um comer o brigadeiro, leva um pouco de quem o fez. Assim, as doceiras das famílias, já se preparam pra próxima panelada de doce e dos encontros que terão enquanto constroem a celebração da vida. O amor mora nessas receitas. Ouvir o aniversariante dizer que amou a festa é dos melhores prazeres que a vida dá a quem prepara uma festa.

Com o tempo, percebi que a vida se parece muito com uma receita de brigadeiro: refeita ano após ano, sempre a mesma e sempre diferente. Os aniversários passam, as crianças crescem, algumas cadeiras à mesa ficam vazias, mas o amor encontra um jeito de permanecer. Ele vive nas receitas repetidas, nos gestos herdados e nas tradições que insistimos em guardar.

Cada brigadeiro enrolado guarda um instante que não volta mais, mas que também nunca vai embora. O que é feito e vivido com amor fica. Nuca se perde.