Anacoluto
O Diário - 23 de junho de 2026
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Figura sintática
Nem sempre as frases seguem o caminho sintático que o leitor espera. Em certas construções, uma palavra ou expressão surge em primeiro plano, chama a atenção para um tema específico e, em seguida, a oração prossegue por outra estrutura. Esse recurso linguístico, conhecido como anacoluto, evidencia que nem toda ruptura representa desordem. Ao contrário, essa construção permite tanto destacar informações consideradas centrais no enunciado quanto aproximar a organização do pensamento da construção da linguagem.
O anacoluto funciona como um recurso de destaque temático ao deslocar para o início do enunciado um elemento que se deseja enfatizar. Em construções como “As crianças, ninguém ignorava suas dificuldades” ou “Aquele livro, já li várias vezes”, os termos iniciais permanecem em evidência, mesmo sem integrar diretamente a estrutura sintática subsequente. Tal procedimento demonstra que a língua dispõe de mecanismos capazes de orientar o olhar do leitor para aquilo que o enunciador considera mais importante.
Mais do que destacar ideias, o anacoluto aproxima a linguagem do modo como o pensamento frequentemente se organiza. Em sequências como “Umas gaivotas bicando peixes em pleno mar, caminhávamos pensando em como ocorre a luta pela sobrevivência”, bem como em construções semelhantes, o tema surge antes da estrutura que o desenvolve, reproduzindo um movimento natural da reflexão. Assim, é essa aparente quebra na organização da frase que permite ao pensamento abrir uma porta e convidar o leitor a percorrer novos caminhos de sentido.



