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Ano Novo

O Diário - 30 de dezembro de 2025

Ano Novo

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Mackenzie

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O Discurso Oculto no Luxo

A passagem para um novo ano, embora celebrada como um rito de prosperidade, revela-se à análise textual como um dentre os momentos ao longo do ano em que a linguagem reafirma as hierarquias imperceptíveis que estruturam o nosso convívio social. Ao observarmos o “tapete vermelho” estendido aos que ostentam riqueza, notamos mecanismos de poder que o cérebro decodifica instantaneamente. O adágio popular “O hábito não faz o monge” alerta para o erro de julgamento de quem lê símbolos externos como se fossem o próprio mérito. Aliás, essa dinâmica sustenta-se sob dois pilares: o efeito de halo e o altruísmo estratégico.

O primeiro mecanismo de poder pode ser verificado tanto no efeito de halo quanto na superioridade projetada. Fato é que o cérebro utiliza atalhos mentais, lendo símbolos – tais como relógios de grife ou carros de luxo – como provas de competência. Na falácia “O homem rico é sábio”, o adjetivo “sábio” surge como um predicativo que o intelecto anexa ao sujeito (homem) pelo brilho do atributo anterior (rico). Essa armadilha cognitiva faz o observador projetar falsas qualidades baseando-se apenas em aparências materiais. Assim, uma sociedade acrítica, que confunde o “ter” com o “ser”, acaba por transformar o capital financeiro em uma “auréola” que silencia toda ação de julgar.

Aprofundando a reflexão, encontramos o altruísmo estratégico como ferramenta de sobrevivência. Aristóteles há muito definiu que “Os que se amam pelo proveito não se amam por si mesmos”. Gramaticalmente, o pronome reflexivo “se” indica reciprocidade aparente, mas o adjunto adverbial de causa “pelo proveito” subordina o afeto a uma finalidade utilitária. Essa conduta revela que o respeito ao luxo é uma herança atávica de quando a proximidade com recursos garantia a vida. Portanto, entender a gramática do poder, em última análise, é o passo inescapável para não ser apenas um peão em um complexo tabuleiro de aparências.

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Mackenzie