Catacrese
O Diário - 7 de fevereiro de 2026
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Mackenzie
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Figura semântica
Quem nunca se referiu ao braço da poltrona ou à asa de uma xícara sem perceber que essas expressões carregam uma história conceitual específica da língua? A catacrese manifesta-se justamente nesses casos em que a língua recorre à analogia para nomear aquilo que ainda não possui denominação própria. Aliás, essa figura de linguagem pode ser examinada sob dois aspectos: seja pelo seu papel como solução necessária para lacunas no léxico, seja pelo recurso que, ao perder o seu valor expressivo, se estabiliza como expressão comum no dia a dia.
Como meio necessário às lacunas no léxico, a catacrese revela-se como uma estratégia de referência indispensável quando não se tem uma palavra específica para nomear um dado da realidade: o braço da poltrona, a asa da xícara e as maçãs do rosto. Todos esses exemplos ilustram o emprego de um vocábulo figurado que ocupa a posição de uma palavra que simplesmente não existe. Essa prática evidencia que a língua não apenas descreve a realidade, mas a organiza simbolicamente, recorrendo a relações de semelhança para garantir precisão e inteligibilidade.
A catacrese perde o seu valor expressivo quando o seu caráter figurativo vai se apagando progressivamente, resultado direto da repetição e da aceitação coletiva. Expressões como boca de fogão, cabeça de prego, pé de mesa, dente de alho, entre outras, também registradas pela gramática normativa, já não produzem efeito estilístico, pois funcionam como denominações neutras e estáveis. Portanto, essa figura semântica, em outras palavras, assemelha-se a uma metáfora que se tornou invisível: permanece operante, mas já não chama atenção para si.
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Mackenzie




