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Chica da Silva em 1ª pessoa

O Diário - 3 de março de 2026

Chica da Silva em 1ª pessoa

KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e ocupante da cadeira 7 da ABC

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Ainda fresca, publicada em janeiro, acaba de vir a público a biografia “Meu nome é Francisca: uma história de Chica Silva”, escrita pela historiadora Mary Del Priore. Produzida pela quase centenária editora José Olympio, a obra de pouco mais de cem páginas narra a trajetória de vida, pensamento e comportamento de uma das personagens mais icônicas do Brasil, a escravizada Chica da Silva, que também foi a mulher mais rica do Brasil de sua época, o século XVIII nas Minas Gerais.

A figura de Chica da Silva tornou-se popular por ter protagonizado romances, teatros e telenovela. Em torno dela surgiram mitos – beirando o erotismo – que foram responsáveis pela estereotipação da personagem. Por isso, é tão importante que a sua trajetória seja contada com base em pesquisa e tudo o que a História possa oferecer enquanto ciência. E é isso que fez a premiada historiadora, mas de forma atraente.

Mary Del Priore apresentou a já conhecida Francisca da Silva de Oliveira em 1ª pessoa, fruto da maturidade historiográfica, renome e licença poética que a historiadora angariou depois de tantas obras publicadas sobre perfis femininos na história do Brasil. Já o havia feito no livro “Leopoldina e Maria da Glória, duas rainhas: vidas e dores” (2024), depois de publicar “Tarsila: uma vida doce-amarga” (2022). 

Na história de Chica da Silva, para além das personagens complexas, padrões quebrados, paisagens naturais e pensamentos enraizados, é a maneira como a historiadora conta a história que chama a atenção. Escrever em 1ª pessoa é literalmente dar voz a uma personagem que por séculos foi descrita e padronizada pela pena, olhos e voz dos outros. Embora não faça a citação das documentações pesquisadas e, sim, dos livros (talvez pela proposta de diagramação), a historiadora trabalha com pesquisa e elenca temas antes não esmiuçados na vida de Chica: expressões em vocábulos africanos, a figura de sua mãe e a sabedoria vinda do povo dela, as permanências culturais que perpetuavam a violência, o apego religioso, o domínio de corpos, os atos de fé, a competição de fortunas, a configuração do pensamento e a vida como ela era – ou que podia se alcançar dela.

Para um livro assim, é necessário: ousadia da autora e consciência do leitor.