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Cirurgia refrativa: muito além do laser

O Diário - 27 de setembro de 2026

Cirurgia refrativa: muito além do laser

SAÚDE: O oftalmologista dr. Fernando Heimbeck, especialista em oftalmologia pelo Wills Eye Hospital, no Estados Unidos, é orientador da Liga Acadêmica de Oftalmologia da Facisb (laof)

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Especialista orienta sobre procedimento, técnicas e indicações mais adequadas 

O dr. Fernando Heimbeck (CRM 104.673), médico oftalmologista especialista em córnea e cirurgia refrativa, explica sobre a cirurgia refrativa que visam corrigir erros de refração, como miopia, astigmatismo e hipermetropia, reduzindo ou eliminando a dependência de óculos e lentes de contato. Em entrevista a O Diário, o especialista esclarece sobre o tema. Confira. 

O DIÁRIO: O que é cirurgia refrativa?

DR. FERNANDO: A cirurgia refrativa é um conjunto de procedimentos destinados a corrigir erros de refração, como miopia, astigmatismo e hipermetropia, reduzindo ou eliminando a dependência de óculos e lentes de contato. Apesar dos avanços tecnológicos, é importante entender que cirurgia refrativa não significa simplesmente “colocar o paciente no laser”. O laser é uma ferramenta. O mais importante é saber quem pode ser operado, qual técnica é mais adequada e qual tratamento oferece maior segurança para aquele olho.

O DIÁRIO: Quais são as principais técnicas?

DR. FERNANDO: Atualmente, entre as principais técnicas estão o PRK, o LASIK e o SMILE. 

No PRK, o tratamento é realizado na superfície da córnea, utilizando o excimer laser para remodelar o tecido corneano. É uma técnica consolidada, com excelentes resultados, e pode ser especialmente interessante em determinadas características anatômicas ou quando se deseja evitar a criação de um flap corneano.

No LASIK é criada uma fina lamela na córnea, o chamado flap, e o excimer laser realiza a correção personalizada abaixo dessa camada. Uma das principais vantagens é a recuperação visual geralmente mais rápida.

Já o SMILE utiliza o laser de femtossegundo para criar e retirar um pequeno lentículo dentro da córnea, por meio de uma pequena incisão, sem a necessidade do flap tradicional do LASIK. É uma tecnologia que ampliou as possibilidades da cirurgia refrativa, especialmente para determinados casos de miopia e astigmatismo.

O DIÁRIO: Então, qual técnica é a melhor?

DR. FERNANDO: Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes — e não existe uma resposta única. A melhor técnica não é necessariamente a mais moderna ou a que está na moda. É aquela que apresenta a melhor relação entre segurança, características da córnea, grau, idade, superfície ocular, necessidades visuais e expectativas do paciente. Por isso, dois pacientes com o mesmo grau podem receber indicações diferentes.

O DIÁRIO: Como saber se uma pessoa pode ou não fazer cirurgia refrativa?

DR. FERNANDO: Essa é uma etapa fundamental. Antes de pensar no procedimento, é necessário realizar uma anamnese detalhada e uma avaliação oftalmológica completa. É preciso conhecer o histórico ocular, estabilidade do grau, uso de lentes de contato, doenças anteriores, medicamentos, sintomas de olho seco, atividades profissionais e esportivas e, principalmente, entender o que o paciente espera obter com a cirurgia.

Depois, entram os exames específicos. A topografia e, principalmente, a tomografia corneana, como o Pentacam, permitem avaliar a anatomia da córnea em detalhes, incluindo sua curvatura, espessura e características das superfícies anterior e posterior. A avaliação da espessura corneana, da superfície ocular e, em situações selecionadas, do mapa de espessura epitelial também pode contribuir para uma análise mais completa.

Essas informações ajudam o cirurgião a identificar alterações que podem aumentar o risco do procedimento. Alterações na topografia/tomografia e espessura corneana insuficiente estão entre os fatores que podem contraindicar ou limitar a indicação da cirurgia a laser.

O DIÁRIO: Mas o laser de última geração faz diferença?

DR. FERNANDO: Sim. A tecnologia tem papel importante. Os equipamentos modernos permitem tratamentos cada vez mais precisos e personalizados, com possibilidade de considerar características individuais da córnea e do sistema óptico de cada paciente. No entanto, é fundamental compreender que um equipamento de última geração não transforma um paciente inadequado em um candidato adequado. A tecnologia potencializa uma boa indicação; ela não substitui o conhecimento médico.

O DIÁRIO: Existe paciente que gostaria de operar, mas não deve fazer a cirurgia?

DR. FERNANDO: Sim. E dizer “não” também faz parte de uma boa medicina. Alguns pacientes apresentam características corneanas, alterações da superfície ocular, graus ou outras condições que tornam a cirurgia a laser inadequada ou aumentam seus riscos. Em determinadas situações, outras alternativas podem ser consideradas; em outras, a melhor decisão é simplesmente não operar. O objetivo não deve ser oferecer cirurgia para todos, mas oferecer a cirurgia certa para o paciente certo.

O DIÁRIO: Qual é, então, o segredo de uma cirurgia refrativa bem-sucedida?

DR. FERNANDO: É a combinação de três elementos: boa indicação, tecnologia adequada e experiência do cirurgião. O laser é extremamente importante, mas o resultado começa muito antes de o paciente entrar na sala cirúrgica. Começa na consulta, na interpretação dos exames e na decisão individualizada sobre se aquele olho deve — e pode — ser operado. Cirurgia refrativa bem indicada pode representar muito mais do que deixar de usar óculos. Para muitos pacientes, significa praticidade, liberdade e uma nova relação com a própria visão.

Mas, para alcançar esse resultado com segurança, a primeira pergunta não deve ser “qual laser vou usar?”. Deve ser: “Este paciente é realmente um bom candidato?”