Como anda o seu luto
O Diário - 7 de agosto de 2025

Cláudia Lima
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Como anda seu luto, perguntam para mim. Digo sempre, vai indo...e a pessoa, agradecida por não ter que ouvir a lamúria dos enlutados dramáticos diz: é assim mesmo ou então: temos que seguir, ou ainda, é o processo natural da vida, todos morrem, até cachorro morre...esse último contrassenso foi ouvido pela minha filha, que adolescente, desacreditou do que ouvia.
A bem da verdade, o luto é uma coisa traiçoeira. Se você acredita que está lidando bem, vem tempestades de memórias, saudade desenfreada e alaga seu coração. Quase morremos afogados de tanta dor. Por dias evito pensar para não “atrair” essa enxurrada de lembranças do tempo sem fim. Com sorte, nessas horas de luto absurdo, lembramos de detalhes da primeira infância. Ontem, eu via displicente uma matéria sobre os aniversários da década de 70 e 80 e subitamente eu já estava na minha festa, menininha delicada, com meu vestido de lastéx branco, sandália branca, sentada no chão de taco da nossa casa rodeada de coleguinhas, de meu pai, minha mãe, meu irmão e minha irmã, todos com bexigas. Atrás, uma janela de ferro e vidro, estilo anos 70, enorme, e uma cortina semi aberta. O bolo, era aquele retangular branco, balas de coco embrulhadas em papéis de seda e os astros da mesa: as garrafas de guaraná. Um luxo dos anos 70. Acordo subitamente do transe que o luto te coloca para que você possa viver o passado no presente. Respiro. Preciso respirar.
Volto para o agora. Árido de entes familiares. Sigo inexorável, o que me garante estar inteira. Conto os meses da ausência de minha mãe...penso que nem é tanto...três meses...parecem 10 anos...paro e penso: dez anos é a distância segura que estou para não permitir que o redemoinho da tempestade do luto me capture. Tem dado certo. Minha sorte foi ter chorado muito nos últimos 5 anos. Sorri, chorei, cantei com, por, para mamãe. Estou de luto. Estou inteira.