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Como lidar com o envelhecer?

O Diário - 6 de fevereiro de 2026

Como lidar com o envelhecer?

Rosa Carneiro é empresária, escritora e integrante da Academia Barretense de Cultura

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“Certas respostas não podem ser apenas teóricas ou individuais. Elas precisam se tornar vivências coletivas.” Diálogo entre duas amigas:
“Como sua mãe está lidando com a velhice de seu pai?”. A pergunta foi feita por uma amiga. Ela queria saber como está sendo para mamãe ver o companheiro de vida cheio de limitações. 

“Papai está com oitenta e sete anos. Está bem em relação à memória, mas precisa da ajuda da bengala e se movimenta com dificuldade. Sente dores o tempo todo.
Não saber o que responder para a amiga, me inquietou. Passei a observar melhor minha mãe. Ela está com oitenta e três anos. Segue bem. E por isso executa pequenas tarefas no dia a dia. Ao me abrir para ouvir mamãe deparei-me com as seguintes frases: ele não me ajuda; não faz nada; só fica sentado ou deitado. Do outro lado percebo papai inquieto por não poder ajudar. No início, julguei, achei minha mãe cruel. Até que, recentemente, vi-me em uma situação diferente, mas parecida. Meu marido, teve dengue e precisou ficar em repouso. Senti falta do parceiro que se mantém sempre a meu lado. Senti-me egoísta por esse pensamento. E, para me desculpar e redimir, sentei-me ao lado dele com um pote de uvas. Vamos dividir? Recuperei a paz.
Ensina a solidariedade, que as pessoas devem ser compassivas uma com a outra ao longo do envelhecimento. Não quero mais apontar o dedo para minha mãe. Percebo que ela está fazendo o que pode e consegue. O problema não são meus pais, mas a expectativa alimentada por mim de que me apontem o caminho de como, eu mesma, devo envelhecer.
Talvez devêssemos conversar – eu, você, todos nós – sobre a velhice. Talvez devêssemos olhar para os nossos velhos – todos eles, não apenas os pais – como pessoas que precisam de nós, de amparo, tolerância, respeito. Gostaria que já existisse uma rota de acesso para um envelhecimento amoroso. Mas não há. Com meus pais estou aprendendo sobre desvios, terrenos difíceis, a julgar menos e a amar mais. Não existe ainda paisagem para apreciar. Existe o amor. A esperança, quem sabe, esteja nele. Um sentimento que vai além dos laços de sangue e nos arrebata a todos como irmãos de jornada.
Estou convencida que o amor supera o conformismo e assim nunca ficaremos à deriva, entregues à própria sorte.”  

Rosa Carneiro é empresária, escritora e integrante da Academia Barretense de Cultura