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Constituição dogmática Dei Verbum – A relação entre a Escritura e a Tradição

Diocese de Barretos - 7 de março de 2026

Constituição dogmática Dei Verbum – A relação entre a Escritura e a Tradição

Constituição dogmática Dei Verbum – A relação entre a Escritura e a Tradição

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Por Pe. Matheus Flávio, Vigário Catedral, Barretos-SP.

Ao continuar a reflexão sobre a Constituição dogmática Dei Verbum, o Papa Leão destaca nessa quarta catequese, que o Concílio Vaticano II conduz-nos ao tema central da relação entre a Sagrada Escritura e a Tradição, apresentando-as não como realidades opostas, mas profundamente unidas. Para compreender esta unidade, é iluminador recordar duas cenas evangélicas. No Cenáculo, Jesus promete aos discípulos o dom do Espírito Santo: “Ele ensinar-vos-á todas as coisas e recordar-vos-á tudo o que vos tenho dito” (Jo 14,26). Já após a ressurreição, nas colinas da Galileia, o Senhor envia os apóstolos em missão: “Ide, pois, ensinai todas as nações […] ensinando-as a cumprir tudo o que vos tenho mandado” (Mt 28,19-20). Estas duas cenas revelam que a Palavra de Cristo não se esgota no momento em que é pronunciada, mas é recordada, compreendida e transmitida ao longo dos séculos, sob a ação do Espírito Santo. É precisamente isso que o Concílio afirma quando declara: “A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão intimamente ligadas e compenetradas entre si. […] derivando ambas da mesma fonte divina, formam como que uma só coisa e tendem para o mesmo fim” (DV, 9). A Tradição não é, portanto, uma repetição mecânica do passado, mas a vida da Palavra de Deus no coração da Igreja. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, “a Sagrada Escritura está inscrita no coração da Igreja antes de o estar em instrumentos materiais” (CIC, 113). A Palavra vive na fé do povo, na liturgia, na pregação e na vida concreta da comunidade cristã. Por isso, o Concílio ensina que “a Tradição apostólica progride na Igreja com a assistência do Espírito Santo” (DV 8). Este progresso acontece por meio da contemplação e do estudo dos fiéis, da experiência espiritual e, de modo especial, através do ministério dos sucessores dos apóstolos, dotados de “um carisma seguro da verdade”. Assim, “na sua doutrina, vida e culto, a Igreja perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo em que acredita” (DV 8). A Palavra de Deus, longe de ser uma realidade estática, é viva e fecunda. São Gregório Magno afirmava: “A Sagrada Escritura cresce com aqueles que a leem”, e Santo Agostinho recordava que lé um só o Verbo que ressoa nos lábios de tantos santos”. São Paulo, ao exortar Timóteo, insiste: “Conserva o depósito que te foi confiado” (1 Tm 6,20). A Dei Verbum retoma esta imagem ao afirmar que “a sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja” (DV 10), cuja interpretação autêntica cabe ao Magistério vivo. Assim, Escritura e Tradição, inseparáveis e animadas pelo mesmo Espírito Santo, permanecem como estrela polar do caminho da Igreja, contribuindo eficazmente para a salvação das almas e orientando o Povo de Deus no meio das complexidades da história.