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Constituição dogmática Dei Verbum – Deus fala aos homens como amigos

Diocese de Barretos - 21 de fevereiro de 2026

Constituição dogmática Dei Verbum – Deus fala aos homens como amigos

Constituição dogmática Dei Verbum – Deus fala aos homens como amigos

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Por Pe. Matheus Flávio, Vigário Catedral, Barretos-SP.

Continuando a leitura das catequeses do Papa Leão sobre o Concílio Vaticano II, nessa segunda catequese ele começa a tratar sobre a Dei Verbum. A Constituição dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, ocupa um lugar central entre os documentos conciliares, pois trata do coração da fé cristã: a Revelação divina. Ao iniciar sua reflexão, o Concílio recorda que Deus não permanece distante ou silencioso, mas entra em relação com o ser humano de modo pessoal e amoroso. Essa verdade pode ser resumida nas palavras de Jesus: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos” (Jo 15,15). A Revelação cristã, portanto, não é antes de tudo um conjunto de verdades abstratas, mas a iniciativa amorosa de Deus que deseja amizade e comunhão. A Dei Verbum afirma de modo luminoso: “Deus invisível, na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele” (DV 2). Esta afirmação revela o caráter profundamente relacional e dialogal da fé cristã. Deus não apenas comunica algo sobre si, mas comunica-se a si mesmo, convidando o ser humano a participar da sua própria vida. Desde o início da história da salvação, Deus estabelece um diálogo com a humanidade. No entanto, esse diálogo é marcado por uma assimetria: Deus é o Criador e nós somos criaturas. Ainda assim, como recorda Santo Agostinho, é a graça que torna possível a amizade com Deus, pois “não somos iguais a Ele, mas é Ele quem nos torna semelhantes no seu Filho”. A vinda de Cristo leva a Aliança ao seu cumprimento definitivo: em Jesus, Deus assume a nossa humanidade para nos tornar seus filhos. Diferentemente da sugestão da serpente no Gênesis – “sereis como deuses” (Gn 3,5) – a verdadeira semelhança com Deus não nasce da transgressão, mas da relação com Cristo, o Filho encarnado. Nele, o diálogo interrompido pelo pecado é restaurado de forma plena e irreversível. A Revelação alcança, assim, sua forma mais alta, pois Deus fala, escuta e permanece fiel. A Dei Verbum também nos ajuda a compreender que a Palavra de Deus não é tagarelice nem simples informação. A palavra verdadeira revela, cria comunhão e estabelece relação. Quando Deus fala, Ele se apresenta como Aliado e Amigo, chamando-nos a responder com escuta e confiança. Por isso, a primeira atitude do crente é a escuta atenta da Palavra, permitindo que ela alcance o coração e transforme a vida. Essa relação de amizade exige cultivo constante, especialmente por meio da oração. Na oração litúrgica, é o próprio Deus que nos fala através da Igreja; na oração pessoal, revelamo-nos a nós mesmos diante d’Ele. Somente quem fala com Deus pode, de fato, falar de Deus. A salvação cristã, como recorda esta catequese, consiste precisamente nisso: na amizade viva e perseverante com o Senhor.