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De repente, Ibitu

O Diário - 21 de abril de 2026

De repente, Ibitu

KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e titular da cadeira 7 da ABC - @profkarlaarmani 

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No início, chamava-se Passatempo, depois Itambé, e agora Ibitu. Esse distrito de Barretos, tão antigo quanto a própria cidade, divide conosco a nossa própria história. De lá partem cenários e personagens que, de tão interessantes, criaram um imaginário quase lendário do lugar. Todo barretense se interessa pelas histórias que nascem “do Ibitu”.

Pensando nelas, dias atrás, uma me caiu às mãos de forma despretensiosa. Tomei emprestado o livro “O evangelho da meninada”, do consagrado autor espírita Eliseu Rigonatti, da Editora Pensamento. A edição em minhas mãos era de 1965. Ao ler o prefácio da obra – que contém as histórias do evangelho de Jesus para crianças –, fiquei surpresa com a revelação: Rigonatti viveu sua infância em Barretos e no charmoso distrito de Ibitu. E mais, as histórias de Jesus que registrara no livro eram memórias que ele guardou de quando vivia em Ibitu e as ouvia numa roda de crianças que uma moça chamada Lina reunia à noite para passar o tempo da meninada. 

Rigonatti, então, nos brinda com um prefácio em que narra como era a vida em Ibitu no distante ano de 1918, quando o nome do povoado ainda era Itambé. Conta o autor: “Itambé era um povoado tranquilo, rodeado de matas quase virgens, de fazendas de criação e de sítios; distava de Barretos quatro léguas, ao norte do Estado de São Paulo. Era o que então se chamava uma boca do sertão. [...]. A pacatez daquele agrupamento humano quebrava-se apenas uma vez por semana, aos domingos, quando o pessoal das fazendas e dos sítios vinha à vila fazer compras. Nesse dia, as frentes das vendas, dos armazéns e das lojas ficavam cheias de cavalos amarrados nas estacas, e as ruas arenosas eram cruzadas por troles e carroças. O automóvel era uma raridade [...]. Outra coisa que desfazia um pouco a monotonia daquele viver eram os períodos das férias escolares, quando os filhos das famílias que estudavam nas cidades grandes voltavam para passar as férias em suas casas. Organizavam [...] serões alegres que ajudavam a passar algumas horas da noite”.

Impressionante o quanto a nossa Barretos – com o seu lendário Ibitu – está presente na memória e na vida de quem e de onde a gente menos espera.