Descrença cívica
O Diário - 24 de março de 2026
Danilo Nunes é advogado e professor. Pós-doutor em Direito e membro da Academia Barretense de Cultura – ABC
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Prefeitura não é quartel. Prefeitos e prefeitas militares que ocupam cargos no Poder Executivo não podem agir como se estivessem nas forças armadas. O prefeito de São José do Rio Preto está sentindo na pele as diferenças entre regras de condutas e democracias nas quais os eleitos devem ter jogo de cintura, capacidade de articulação e constante diálogo com os servidores.
O mau exemplo de ataques à imprensa, ausência de diálogo institucional e negligencia em saúde pública no caso da Covid-19 recentes, deveriam servir de modelo “a não ser seguido” pelo Prefeito. Com base no “eu mando, você obedece”, o curto mandato de Fábio Candido já coleciona dissabores e recente escândalo de rachadinha envolvendo a conselheira tutelar Janaina Albuquerque que afirma ter gravado reunião em que a Secretária de Desenvolvimento Social, Sandra Reis, que teria sugerido parar processo judicial em troca de aproximação política. O caso foi levado ao Ministério Público, o prefeito – como sempre – disse “não saber de nada”, a secretária foi “jogada aos leões”... Ou seja, o prefeito militar “de direita” usa do mesmo expediente comum aos petistas aos quais sempre criticou e a esquerda que demoniza. Tudo 0 x 0, igual e do mesmo tamanho. Para quem votou em Fábio Cândido, há um clima de descrença cívica.
O promotor Sérgio Clementino confirmou que instaurará procedimentos nas áreas cível e criminal para apurar atos de corrupção, coação e improbidade administrativa.
Bater continência não é praxe na classe política brasileira. A partir da democratização da internet, ficou fácil gravar reuniões e utilizar juridicamente, tendo em vista o respaldo do STF quanto à gravação ambiental como prova lícita, desde que os gravados estejam na conversa. Caso recente ocorreu em Barretos, em prédio público, em que dois - de três - vereadores servidores saíram em defesa dos colegas quando a categoria foi atacada por gestor público.
Os tempos são outros. Os políticos são monitorados em tempo real e não se cansam de fazerem provas contra si mesmos. Bater continência para políticos e apoio incondicional são práticas do passado. Ah, e cuidado como gravador!



