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Deus ao encontro do homem

Diocese de Barretos - 29 de janeiro de 2026

Deus ao encontro do homem

Por Dom Milton Kenan Júnio, Bispo de Barretos 

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Se o primeiro capítulo do Catecismo afirma que “o homem é capaz de Deus”, o segundo aprofunda a verdade complementar: Deus é quem toma a iniciativa de ir ao encontro do homem. A fé cristã não nasce apenas da busca humana, mas, sobretudo, da Revelação divina. Deus não permanece distante ou silencioso; Ele entra na história, fala, age e se comunica para estabelecer uma aliança de amor com a humanidade. O Capítulo Segundo do Catecismo da Igreja Católica (nn. 50–141) apresenta o conteúdo, a dinâmica e a transmissão dessa Revelação, culminando em Jesus Cristo, a Palavra definitiva do Pai. O Catecismo afirma: “Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade” (CIC, 51). A Revelação não é um conjunto de ideias abstratas, mas um acontecimento histórico e relacional. Deus se manifesta por palavras e ações, convidando o homem à comunhão. Ele revela quem é e qual é o seu desígnio de salvação. Essa iniciativa divina mostra que a fé cristã é resposta a um dom: o homem não inventa Deus; ele acolhe a manifestação de Deus. Deus se revela progressivamente na história: a) A criação: ela já é uma primeira linguagem de Deus. O mundo manifesta sua sabedoria, bondade e poder. b) A aliança com Israel: Deus escolhe Abraão, forma um povo, liberta Israel do Egito e estabelece uma aliança. Ele se revela como Deus fiel, libertador e misericordioso. c) Os profetas: eles recordam ao povo a fidelidade à aliança e anunciam uma salvação futura. Essa pedagogia divina mostra que Deus educa o seu povo gradualmente, respeitando a história e a liberdade humanas. O ponto culminante da Revelação é Jesus Cristo: “Jesus Cristo é ao mesmo tempo o mediador e a plenitude de toda a Revelação” (CIC, 53). Em Cristo, Deus não apenas fala: Ele se faz homem. A Palavra eterna assume a carne e entra na história. Tudo o que Deus quis dizer à humanidade foi dito em seu Filho. Por isso, não se espera uma nova Revelação pública depois de Cristo. A fé cristã vive da contemplação, aprofundamento e atualização dessa Revelação já completa. A Revelação não ficou presa ao passado. Ela é transmitida pela Igreja por meio de dois pilares inseparáveis: a) A Sagrada Escritura: Ela é a Palavra de Deus escrita sob inspiração do Espírito Santo. b) A Tradição:  é a transmissão viva da fé dos apóstolos na vida, na liturgia, na doutrina e na prática da Igreja. O Catecismo ensina: “A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um único depósito sagrado da Palavra de Deus” (CIC, 97). Ambas são interpretadas autenticamente pelo Magistério da Igreja, que serve à Palavra, não a domina. Deus se revela para que o homem responda. Essa resposta chama-se fé: “Pela fé, o homem submete completamente sua inteligência e sua vontade a Deus” (CIC, 143). A fé não é apenas aceitar verdades, mas confiar em uma Pessoa. É adesão livre, racional e amorosa ao Deus que se comunica. Maria é apresentada como modelo dessa resposta: ela escuta, acolhe e se entrega plenamente à vontade divina.