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Dilexi te – Algumas palavras indispensáveis

Diocese de Barretos - 10 de janeiro de 2026

Dilexi te – Algumas palavras indispensáveis

Por Pe. Daniel Canevarollo, Vigário Paróquia São Benedito, Barretos. 

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A Exortação Apostólica Dilexi te propõe uma reflexão profunda sobre o amor de Deus que se revela de modo privilegiado nos pobres, situando essa opção no coração do Evangelho e da missão da Igreja. Desde o início, o texto recorda que o amor divino se manifesta justamente àqueles que “não tinham qualquer relevância ou recurso” e que possuíam apenas “pouca força” (Ap 3,8), mas que, ainda assim, ouviram do Senhor: “Eu te amei” (Ap 3,9). Essa declaração ecoa o cântico de Maria, no qual Deus “exaltou os humildes” e “encheu de bens os famintos” (Lc 1,52-53), revelando uma lógica salvífica que inverte os critérios do mundo. Em continuidade com a reflexão do Papa Francisco na encíclica Dilexit nos, a Exortação reafirma que Jesus “se identifica com os últimos da sociedade” e que o seu amor “mostra a dignidade de cada ser humano, sobretudo quando é mais fraco, mísero e sofredor”. Contemplar esse amor não é um exercício meramente espiritual, mas um caminho que conduz à ação concreta, pois “ajuda-nos a prestar mais atenção ao sofrimento e às necessidades dos outros” e a participar da obra libertadora de Cristo. Assim, o amor a Deus e o amor aos pobres não podem ser dissociados. Essa unidade é expressa de modo emblemático no episódio da mulher que unge Jesus com perfume precioso. Embora criticada por um suposto desperdício, o Senhor reconhece o valor daquele gesto e afirma: “Em qualquer parte do mundo onde este Evangelho for anunciado, há de também narrar-se, em sua memória, o que ela acaba de fazer” (Mt 26,13). O texto sublinha que “nenhuma expressão de carinho, nem mesmo a menor delas, será esquecida”, sobretudo quando dirigida a quem sofre. Aqui, revela-se que o cuidado com os pobres nasce de um coração capaz de reconhecer o Cristo sofredor. A tradição da Igreja confirma essa intuição evangélica. O Papa Francisco recorda a advertência recebida no momento de sua eleição: “Não te esqueças dos pobres!”, ecoando o compromisso assumido por São Paulo – “foi o que procurei fazer com o maior empenho” (Gl 2,10) – e a experiência transformadora de São Francisco de Assis, que reconheceu Cristo no leproso. A opção preferencial pelos pobres, gera “uma renovação extraordinária tanto na Igreja como na sociedade”, desde que se abandone a autorreferencialidade e se escute o clamor dos necessitados. Por fim, a Exortação recorda que esse clamor tem fundamento bíblico: Deus diz a Moisés “Eu bem vi a opressão do meu povo […] ouvi o seu clamor” (Ex 3,7). Ignorar esse grito seria afastar-se do próprio coração de Deus. Assim, Dilexi te reafirma que o encontro com os pobres não é mera filantropia, mas um lugar teológico privilegiado, onde o cristão encontra o próprio Cristo e se configura cada vez mais ao seu amor.