Dilexi te – Deus escolhe os pobres
Diocese de Barretos - 17 de janeiro de 2026
Por Dom Milton Kenan Júnior, Bispo de Barretos
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O segundo capítulo da Exortação Apostólica Dilexi te aprofunda o fundamento teológico e bíblico da opção preferencial de Deus pelos pobres, mostrando que tal escolha não é acidental, mas pertence ao próprio desígnio salvífico. Deus revela-se como “amor misericordioso” que “desce e vem estar entre nós para nos libertar da escravidão, dos medos, do pecado e do poder da morte” (n. 16). Ao assumir a condição humana, Ele mesmo “se fez pobre”, manifestando-se na fragilidade do nascimento em Belém e na humilhação extrema da cruz. Dessa forma, pode-se afirmar, inclusive “teologicamente”, que existe uma opção preferencial de Deus pelos pobres, entendida não como exclusivismo, mas como expressão da sua compaixão pela fragilidade de toda a humanidade. A Sagrada Escritura confirma amplamente essa predileção divina. No Antigo Testamento, Deus é apresentado como aquele que “escuta o grito do pobre e intervém para o libertar” (cf. Sl 34,7), denunciando, por meio dos profetas, toda forma de opressão e culto vazio. A Exortação chega a afirmar que, em relação aos pobres, se poderia falar de uma espécie de “fraqueza” de Deus, pois “no coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres” e “todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres” (n. 17). Essa linha encontra sua plena realização em Jesus Cristo, o Messias pobre. Ele “esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo” (Fl 2,7), revelando a verdadeira face do amor divino. Por isso, São Paulo sintetiza magistralmente: “sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8,9). A pobreza de Jesus não é apenas material, mas existencial: desde o nascimento, quando “não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7), até a morte fora dos muros da cidade (cf. Mc 15,22), Ele partilha a condição dos excluídos. O Evangelho mostra ainda que Jesus se identifica explicitamente com os pobres, anunciando-lhes a Boa-Nova: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6,20). Neles, Deus dirige primeiro a sua palavra de esperança e libertação, de modo que ninguém “deve sentir-se abandonado” (n. 21). Assim, a Igreja, se deseja ser fiel a Cristo, deve ser “Igreja das Bem-aventuranças”, caminhando “pobre com os pobres” e oferecendo-lhes um lugar privilegiado. Por fim, a misericórdia para com os pobres aparece como critério decisivo da autenticidade da fé. A Escritura é clara: “Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?” (1 Jo 3,17). Por isso, a Palavra revelada permanece como apelo permanente à caridade concreta, pois “a fé, se não tiver obras, está completamente morta” (Tg 2,17). A opção de Deus pelos pobres, portanto, interpela continuamente a Igreja a viver uma fé que se traduz em amor efetivo e transformador.




