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Dilexi te – Uma Igreja para os pobres

Diocese de Barretos - 24 de janeiro de 2026

Dilexi te – Uma Igreja para os pobres

Dilexi te – Uma Igreja para os pobres

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Por Pe. Matheus Flávio, Vigário Paroquial Catedral, Barretos-SP.

O terceiro capítulo desenvolve de modo orgânico a convicção de que a atenção aos pobres pertence à própria identidade da Igreja e não a uma escolha acessória. Desde o início, recorda-se o desejo expresso pelo Papa Francisco logo após a sua eleição: “Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!” (n. 35). Tal anseio não é mero slogan pastoral, mas expressão de uma consciência eclesial profunda, a Igreja reconhece nos pobres “a imagem do seu fundador pobre e sofredor” e entende que, ao servi-los, serve o próprio Cristo (n. 36). Por isso, afirma-se sem ambiguidades que “existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres” (n. 36). A história da Igreja confirma essa verdade. Já na comunidade apostólica, embora não houvesse “muitos sábios, nem muitos poderosos” (1Cor 1,26), existia clara sensibilidade para com os necessitados. A instituição dos diáconos para o serviço da diakonía (cf. At 6,1-5) manifesta que a caridade organizada é constitutiva da vida eclesial. O testemunho de Santo Estêvão, que uniu o serviço aos pobres ao martírio, revela que a atenção aos últimos faz parte do seguimento radical de Cristo (n. 37). Os Padres da Igreja aprofundaram teologicamente essa convicção. Para eles, o pobre não era apenas destinatário da caridade, mas “um acesso privilegiado a Deus” (n. 39). Santo Inácio de Antioquia advertia contra aqueles que “não se preocupam com o amor, nem com a viúva, nem com o órfão” (n. 39), enquanto São Policarpo exortava os ministros a não descuidarem “a viúva, o órfão e o pobre” (n. 39). A fé autêntica, portanto, manifesta-se no cuidado concreto. São João Crisóstomo exprime essa visão de modo incisivo ao afirmar: “Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres” (n. 41). Para ele, não há verdadeiro culto quando se ignora o necessitado, pois “De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo […] se Ele morre de fome na pessoa dos pobres?” (n. 41). A caridade torna-se, assim, critério do verdadeiro culto (n. 42). Na mesma linha, Santo Agostinho ensina que dar aos pobres não é mera generosidade, mas justiça: “Não é de tua propriedade aquilo que dás ao pobre; é dele” (n. 43). O Bispo de Hipona vê no pobre uma presença sacramental de Cristo e afirma que a partilha dos bens nasce da caridade teologal (n. 44). Por isso, cuidar dos pobres purifica o coração e conduz à conversão. Em síntese, o capítulo mostra que a Igreja só é fiel ao Evangelho quando se coloca decididamente ao lado dos pobres. A tradição bíblica, patrística e histórica converge numa mesma certeza: servir os pobres é encontrar Cristo, e uma Igreja que se esquece deles perde o seu rosto mais autêntico.