Dilexite – Uma história que continua
Diocese de Barretos - 31 de janeiro de 2026
Dilexite – Uma história que continua
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Por Pe. Matheus Flávio, Vigário paroquial Catedral, Barretos-SP
O quarto capítulo da Exortação Apostólica do Papa Leão que estamos lendo, insere a opção pelos pobres no dinamismo histórico da Igreja, mostrando como ela se desenvolveu de modo orgânico no Magistério dos últimos séculos, especialmente através da Doutrina Social da Igreja. Desde o início, sublinha-se que as profundas transformações sociais e tecnológicas não foram apenas sofridas pelos pobres, mas também pensadas e enfrentadas por eles, pois “a realidade se vê melhor a partir das periferias” e os pobres são “sujeitos de uma inteligência específica, indispensável à Igreja e à humanidade” (n. 82). Nesse contexto, o Magistério pontifício apresenta-se como um verdadeiro tesouro. Com a Rerum novarum, Leão XIII denunciou “a situação intolerável de muitos operários da indústria” e propôs uma ordem social mais justa (n. 83). São João XXIII ampliou essa visão ao afirmar que os países ricos não podem permanecer indiferentes diante da fome e da miséria, sendo chamados a uma solidariedade efetiva em escala mundial (n. 83). O Concílio Vaticano II constitui um marco decisivo. São João XXIII proclamou, às vésperas de sua abertura, que a Igreja quer ser “Igreja de todos e particularmente Igreja dos pobres” (n. 84). Tal intuição foi aprofundada por numerosos Padres conciliares, entre eles o cardeal Lercaro, ao afirmar que “o mistério de Cristo na Igreja […] é o mistério de Cristo presente nos pobres” (n. 84). A Constituição Gaudium et spes reafirmou com clareza a destinação universal dos bens, lembrando que “quem usa desses bens, não deve considerar as coisas exteriores […] só como próprias, mas também como comuns” (n. 86). São Paulo VI deu continuidade a esse caminho, recordando que “o pobre é representante de Cristo” (n. 85) e advertindo que ninguém tem “o direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário” (n. 86). São João Paulo II consolidou doutrinalmente a opção preferencial pelos pobres como “uma forma especial de primado na prática da caridade cristã” (n. 87), insistindo que ignorar os pobres equivaleria a imitar “o rico epulão” indiferente ao sofrimento de Lázaro (n. 87). Bento XVI aprofundou a dimensão estrutural do problema ao afirmar que a fome deriva sobretudo da “escassez de recursos sociais […] de natureza institucional” (n. 88). O Papa Francisco, por sua vez, denunciou com vigor as “estruturas de pecado” e a “ditadura de uma economia que mata” (n. 92), recordando que a falta de equidade é “a raiz dos males sociais” (n. 94). Por fim, o texto enfatiza que os pobres não são apenas destinatários da ação pastoral, mas verdadeiros sujeitos. A Conferência de Aparecida recorda que eles “se fazem sujeitos da evangelização e da promoção humana integral” (n. 100), convidando toda a Igreja a deixar-se evangelizar por eles e a reconhecer “a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles” (n. 102).




