Famílias
O Diário - 5 de abril de 2026
Rogério Ferreira da Silva é cirurgião-dentista
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A família é uma árvore que se rega, mas que, às vezes, também precisa de poda. Nem todo ambiente é acolhedor só porque é familiar. Existem laços que, com o tempo, deixam de ser abrigo e passam a ser transtorno, um terreno fértil para mágoas e ressentimentos. E a gente precisa ter sabedoria de reconhecer que isso não significa que não amamos os nossos familiares, mas que temos a consciência de que há algo que não está funcionando bem naquela relação. A gente cresce ouvindo que família é para sempre, que precisa aguentar, relevar, suportar. E, em muitos casos, isso faz sentido, é verdade. Mas existem situações em que permanecer por perto começa a custar caro demais. De um lado, um familiar em torno do qual a família inteira precisa estar correspondendo aos rompantes de humor, às variações de reações equivocadas, às grosserias; e, do outro, alguém cuja paz vai embora, o respeito diminui, a convivência machuca, enquanto tenta se adaptar àquela outra pessoa. E chega um momento em que você entende que ficar ali, por perto, pode ser mais destrutivo do que se afastar. Tem relações que só se resolvem com distância. Às vezes, manter uma distância emocional é o que preserva o mínimo de respeito, de admiração, de convivência possível. É um jeito de não deixar que o desgaste transforme tudo numa espécie de ruptura definitiva. Talvez você que tem uma relação excelente com seus familiares, custe a entender isso. Mas é que nem todo mundo teve uma base familiar estruturada. Tem gente que nunca viveu uma relação boa com os pais, com os irmãos. Tem gente que viu esse vínculo se desgastar aos poucos, sem perceber. E isso gera frustração, culpa, medo. E aí muita gente vive com essa corda tensionada, com medo dos julgamentos alheio, como se a decisão de se afastar fosse uma espécie de traição. Mas não é. Em alguns casos, se afastar é um ato de responsabilidade consigo e, também, com o outro. Tem momentos em que vamos precisar olhar para frente e escolher manter uma distância segura. A gente não pode se perder do nosso caminho. A gente precisa lutar para se manter bem e em paz com a nossa família de origem. E isso não significa almoçar todo domingo com alguém diante de quem você precisa estar sempre à disposição das variações de humor, dos comentários ácidos, das grosserias. Às vezes, manter essa paz e se manter bem com essas pessoas é fazendo justamente o contrário: convivendo pouco, sendo presente, mas em doses homeopáticas. Um ótimo domingo para você!



