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Grupo Papo Furado transforma a reabilitação de pacientes laringectomizados por meio da música e da convivência

O Diário - 15 de julho de 2026

Grupo Papo Furado transforma a reabilitação de pacientes laringectomizados por meio da música e da convivência

Grupo Papo Furado transforma a reabilitação de pacientes laringectomizados por meio da música e da convivência

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Projeto do Instituto Sociocultural reúne pacientes submetidos à laringectomia total e mostra como a música contribui para a retomada da qualidade de vida

Perder a voz é uma das mudanças mais marcantes enfrentadas por pacientes submetidos à laringectomia total, cirurgia indicada para o tratamento do câncer de laringe. Além da retirada do órgão responsável pela produção da voz, o procedimento exige uma adaptação física, emocional e social que se estende muito além do período de internação.

No Hospital de Amor, esse processo de reabilitação ganhou um importante aliado há mais de duas décadas. Criado em 2002, o Grupo Papo Furado reúne pacientes laringectomizados em encontros mensais que promovem acolhimento, troca de experiências e atividades voltadas ao desenvolvimento da comunicação, da autoestima e da convivência. Um dos principais pilares do projeto é o Coral Papo Furado, formado por pacientes que, mesmo após perderem a laringe, voltaram a cantar utilizando diferentes formas de comunicação.

Atualmente coordenado pelo Instituto Sociocultural do Hospital de Amor, o grupo reúne entre 25 e 30 participantes de cidades dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. A iniciativa ganha ainda mais relevância durante o “Julho Verde”, campanha nacional dedicada à conscientização, prevenção e combate ao câncer de cabeça e pescoço. A mobilização alerta para a importância do diagnóstico precoce de tumores que acometem regiões como boca, garganta, laringe, faringe, tireoide e pele da face. O ponto alto da campanha é o dia 27 de julho, instituído pela Organização Mundial da Saúde como o Dia Mundial de Prevenção ao Câncer de Cabeça e Pescoço.

A origem do grupo

A ideia do Grupo Papo Furado surgiu em 2002, quando a fonoaudióloga Juliana Levy Daher iniciou seu trabalho no Hospital de Amor. Segundo ela, durante o atendimento aos pacientes submetidos à laringectomia total, ficou evidente que a reabilitação precisava ir além da recuperação funcional da fala. “Na minha concepção, a laringectomia era a cirurgia mais devastadora. A pessoa perdia a forma de se comunicar com o outro”, afirma.

Os primeiros encontros tinham como objetivo reunir pacientes para conversar sobre as dificuldades enfrentadas após o tratamento. Com o tempo, músicos e profissionais de outras áreas passaram a integrar a iniciativa, que deu origem ao coral. O nome do grupo também nasceu de forma espontânea. Durante uma reunião, um dos pacientes sugeriu “Papo Furado”.

“Ele disse que era porque ali a gente jogava conversa fora e porque o papo era furado. Todo mundo gostou, e o nome ficou”, lembra Juliana. A fonoaudióloga coordenou o grupo até 2013. Após um período afastada, retornou em 2024, quando reassumiu a coordenação do projeto, já sob gestão do Instituto Sociocultural do Hospital de Amor.

Cantar depois da laringectomia

Embora a retirada da laringe elimine a produção natural da voz, existem alternativas que permitem ao paciente voltar a se comunicar. Juliana explica que os integrantes do coral utilizam três formas diferentes de comunicação: a voz esofágica, produzida por meio do esôfago; a laringe eletrônica, aparelho que produz uma vibração sonora enquanto o paciente articula as palavras; e a prótese traqueoesofágica, implantada cirurgicamente em alguns casos. As diferentes características vocais exigem adaptações constantes durante os ensaios.

Há quatro anos acompanhando o grupo, o músico Euvaldo dos Santos é responsável por adaptar o repertório para as condições dos participantes. “As músicas precisam ser ajustadas na tonalidade e na velocidade. Eles têm pouco tempo respiratório e cada tipo de voz tem uma característica diferente”, explica.

Para ele, a convivência com o grupo trouxe aprendizados que vão além da música. “Foi e continua sendo uma lição de vida. A gente passa a valorizar mais as coisas e percebe a força que eles têm para enfrentar as dificuldades.” O repertório prioriza músicas conhecidas pelos participantes, facilitando a memorização das letras e a participação de todos.

Muito além dos ensaios

Os encontros mensais incluem apresentações musicais, dinâmicas em grupo, exercícios corporais e atividades voltadas à integração entre pacientes e familiares. Segundo Juliana, a proposta é estimular não apenas a comunicação, mas também a expressão corporal, a coordenação motora e a interação social. “A gente procura trabalhar temas diferentes todos os meses para que eles tenham vontade de participar. Também fazemos atividades com bolas, máscaras, confetes e outros materiais para estimular o movimento, porque muitos pacientes ficam com limitações após a cirurgia.”

Além das apresentações realizadas dentro do Hospital de Amor, o coral também participa de eventos externos, contribuindo para ampliar a visibilidade das pessoas laringectomizadas e reduzir o estigma relacionado à perda da voz.

Entre as integrantes mais antigas está Nilda Soares da Conceição, de Americana (SP), diagnosticada com câncer de laringe em 2000. Ela desenvolveu a voz esofágica após oito meses de reabilitação. “A primeira palavra que eu consegui falar foi o nome do meu filho, Breno”, recorda.

Desde os primeiros anos do grupo, participa das apresentações e afirma que o coral se tornou parte da sua vida. “Ajuda muito. Quando a gente canta, não canta só para a gente. A gente canta para todo mundo que está escutando, e isso aquece o coração de pacientes e parentes dos pacientes nas recepções, na internação, em todos os lugares”, comenta ela.

Carlos Eduardo Freitas Oliveira, enfrenta mensalmente quase oito horas de viagem para vir de de Rio Verde (GO) à Barretos e encontrou no grupo um espaço de convivência após o tratamento realizado há 13 anos. “É bom vir. Tem muita gente boa aqui. É uma ajuda para a gente”, diz. 

O impacto do projeto também é percebido pelos familiares. Moradora de Monte Azul Paulista, Isabel Cristina de Sousa acompanha o marido Jair em todos os encontros desde que ele passou pela cirurgia. “O coral faz muito bem para ele. E faz bem para mim também.”

Reabilitação que continua após o tratamento

Além do desenvolvimento da comunicação, o Grupo Papo Furado busca fortalecer a autonomia, a autoestima e a reintegração social dos pacientes. Para Juliana, um dos principais resultados do projeto é mostrar aos recém-operados que é possível retomar atividades que muitos imaginam não serem mais alcançáveis.

“Muitas pessoas chegam acreditando que nunca mais vão conseguir falar ou participar de atividades em grupo. Quando encontram outros pacientes cantando, conversando e levando uma vida ativa, passam a acreditar que elas também podem”, celebra a fonoaudióloga. Mais de duas décadas após sua criação, o Grupo Papo Furado permanece reunindo pacientes de diferentes cidades em torno de um objetivo comum: mostrar que a reabilitação vai além da recuperação física e passa, também, pela convivência, pelo acolhimento e pela reconstrução da confiança para voltar a se comunicar com o mundo.