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Hipérbato

O Diário - 10 de maio de 2026

Hipérbato

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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Figura sintática

Há construções em que a ordem habitual das palavras é deliberadamente alterada e, ainda assim, a compreensão se mantém íntegra, o que evidencia a flexibilidade da sintaxe na construção do discurso. Esse fenômeno, conhecido como hipérbato, consiste na inversão da ordem direta dos termos da oração, sem prejuízo da compreensão. Tal recurso evidencia duas dimensões centrais: a possibilidade de reorganizar a estrutura sintática para fins expressivos e o papel dessa inversão na construção do ritmo e da estilização do enunciado.

O hipérbato atua como recurso de reorganização sintática para fins expressivos, ao deslocar termos e atribuir-lhes maior destaque na exposição. Em construções como “Grandes foram as conquistas do pesquisador” ou “Da verdade se afastaram muitos argumentos”, a inversão da ordem direta evidencia elementos que, em posição usual, passariam despercebidos. Esse procedimento demonstra que a sintaxe pode ser manipulada de modo intencional para intensificar o sentido e valorizar determinadas informações.

Ao alterar a cadência natural da frase, o hipérbato contribui para a construção de ritmo e para a estilização do discurso. Em sequências como “Tristes estavam os dias daquele inverno” ou “Aos poucos, revelava-se a resposta esperada”, a disposição invertida dos termos confere ao que é dito maior solenidade e efeito estético. Assim, ao reorganizar a ordem das palavras, o hipérbato mostra que a forma também diz, e que, ao dizer de outro modo, amplia-se o modo de significar.

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie