Hiperfoco, telas e infância – estamos terceirizando o desenvolvimento?
O Diário - 28 de fevereiro de 2026
Aparecido Cipriano Militar aposentado, Diretor de Escola Mestre em Educação (Unesp)
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Há algo silencioso acontecendo nas salas de estar, nos quartos e, infelizmente, até nas salas de aula, o celular tornou-se o novo “organizador emocional” da infância. Quando falamos de crianças com Transtorno do Espectro Autista, o cuidado precisa ser ainda maior. Sabemos que muitas apresentam hiperfoco — uma capacidade intensa de concentração em determinados estímulos. O problema não é o hiperfoco. O problema é quando ele é capturado por algoritmos.
Temple Grandin sempre destacou que o interesse intenso pode ser uma ponte para o desenvolvimento, desde que mediado e direcionado. Mas o celular não medeia — ele captura. Ele entrega recompensa rápida, estímulo constante e previsibilidade absoluta. E o cérebro infantil adora previsibilidade. Lev Vygotsky nos ensinou que o desenvolvimento ocorre na interação social. Já Jean Piaget mostrou que a inteligência se constrói na ação sobre o mundo concreto. Toque, frustração, espera, negociação, erro — tudo isso estrutura o pensamento.
Quando substituímos o mundo real pela tela, substituímos também os conflitos necessários ao amadurecimento. O neurocientista Manfred Spitzer alerta para o impacto do uso excessivo de dispositivos digitais no desenvolvimento cognitivo, especialmente em fases sensíveis da infância. Importante a provocação com uma pergunta desconfortável: estamos mais conectados — ou mais isolados?
No caso da criança autista, o risco é ainda maior. O hiperfoco, quando direcionado exclusivamente às telas, pode reduzir experiências sociais, empobrecer a comunicação funcional e limitar repertórios simbólicos. Não se trata de demonizar a tecnologia. Trata-se de mediação, presença adulta e de intencionalidade pedagógica.
Celular não pode ser babá. Tablet não pode ser calmante. Tela não pode substituir vínculo. E desenvolvimento não é download. É construção.



