Inteligências Artificiais
O Diário - 14 de dezembro de 2025
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Mackenzie
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Vamos pensar um pouco...
“Houve um tempo em que os homens abdicaram do pensamento em favor das máquinas, na esperança de que as máquinas os fariam livres. Mas isso permitiu apenas que outros homens, com máquinas, os escravizassem”. Esse excerto pode ser lido no livro Duna, escrito pelo autor Frank Herbert e publicado em 1965. Ou seja, há exatos 60 anos. Todavia, o sentido que essas palavras convocam continua evidentemente atual. Aliás, o tempo é o supremo teste que prova todas as narrativas, boas ou más. Aquelas que resistem ao todo poderoso Cronos ganham o Olimpo mítico e, por isso, a dileta distinção como obras literárias que são.
Seis décadas depois da publicação de Duna, a humanidade tem literalmente delegado às Inteligências Artificiais a ação de pensar. Com efeito, a realidade instaurada é dura. A autoria nunca foi tão líquida. Textos escolares, acadêmicos e profissionais autênticos – isto é, criados sem ajuda de IAs – vêm à luz tão somente quando criados em cativeiro. As salas de aulas e os concursos públicos, sob forte supervisão, são os espaços que atualmente garantem o viés humano nas redações. De fato, nesta era, caso se reconheça como hodierna verdade o que se alega como realidade em Duna, o homem é o lobo do homem a despeito da ferramenta que use.
As obras literárias realmente fazem isto: exploram o tempo e resistem a ele. O texto aqui apresentado é, no todo, a fala de uma personagem. Essa é a razão pela qual a palavra “máquinas” encontra-se repetida no mesmo período e o uso da conjunção “mas” é permitido no início de uma frase. Algo que deve ser evitado na língua escrita formal, mas é a inequívoca normalidade em um diálogo. Outro fato é que essas duas palavras acentuam a tragédia e o paradoxo de uma situação humana, na qual a causa da liberdade torna-se a ferramenta da escravidão. Portanto, o problema não está nas ferramentas, mas nas intenções daqueles que as impunham. “Veja o plano dentro do plano, dentro plano”.
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Mackenzie




