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Ironia

O Diário - 5 de abril de 2026

Ironia

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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Figura semântica

Quantas vezes, diante de um atraso monumental, ouvimos alguém exclamar: “Chegou na hora exata”? Essa experiência compartilhada ilustra a ironia, a inversão intencional de sentido em que se afirma o oposto do que se pensa. Longe de ser apenas uma brincadeira, essa figura semântica possui propósitos discursivos precisos. Por um lado, ela funciona como um instrumento cortante de sátira das contradições da sociedade; por outro, estabelece-se como um mecanismo para a ridicularização de comportamentos inadequados.

A capacidade de tecer críticas públicas ganha uma força inegável por meio da sagacidade satírica. Obras literárias consagradas frequentemente louvam a aparente honestidade de governantes corruptos para desmascará-los, assim como charges jornalísticas exaltam a “eficiência” de serviços precários para evidenciar exatamente o abandono estatal. Ao exigir que a audiência desvende o não dito, aquele que enuncia abandona o ataque frontal e convoca o raciocínio crítico da pessoa com quem se fala, tornando a censura à hipocrisia muito mais sofisticada e memorável.

No âmbito das relações interpessoais, dizer o avesso da realidade converte-se em uma tática de ridicularização de atividades inconvenientes. Elogiar a “bela educação” de um colega que interrompe a fala alheia sem pedir licença ou parabenizar a “extrema agilidade” de quem vive ignorando prazos estabelecidos são formas incisivas de constranger o desrespeito. Esse humor ácido age como um espelho invertido que reflete o absurdo e pune a incoerência de forma inteligente. A percepção atenta dessa dinâmica mostra que a verdadeira fluência prática e intelectual não é refém do óbvio. Afinal, afirmar o contrário do que se pensa costuma ser, paradoxalmente, a forma mais afiada de expor a realidade. 

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie