Magnifica humanitas: o algoritmo e o ato profético da Boa Notícia
O Diário - 1 de julho de 2026
Padre Marcio Tadeu - Sacerdote na Diocese de Votuporanga(SP), pároco, professor, Pós-graduado em Bioética pela Cátedra da UNESCO e apresentador na Rede Vida
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A urgência pastoral não é amplificar a voz do profeta da destruição, mas recuperar a voz do profeta que aponta para o Salvador. "Convertei-vos e crede no Evangelho" só faz sentido quando quem ouve esse chamado já foi tocado por uma experiência prévia de ser amado.
Há uma profecia necessária em todos os momentos da história. Não se trata de anunciar novidades que o Evangelho ainda não revelou. Em Jesus Cristo, tudo nos foi dado: a segunda vinda, o juízo, a comunhão dos santos, a ressurreição dos corpos. Nada disso precisa ser reinventado. O que urge, contudo, é perguntar como profetizar num tempo em que os sentimentos humanos são sistematicamente instrumentalizados para produzir divisão.
O fenômeno não é peculiar ao Brasil, embora aqui se manifeste com particular intensidade. Assiste-se, em escala global, à fragmentação do tecido social em grupos que se organizam não por convicções refletidas, mas pela adesão emocional a figuras polarizadoras. O que alimenta esse processo não é apenas a maldade humana de sempre: é também uma arquitetura de comunicação deliberadamente construída para mantê-lo ativo. As tecnologias emergentes, como advertiu o Papa Leão XIV na encíclica Magnifica Humanitas (MH), estão "entrelaçadas com o tecido da vida diária, moldando os processos de tomada de decisão e afetando profundamente a imaginação coletiva"(MH 4). Os algoritmos das plataformas digitais funcionam como câmaras de eco que amplificam o que sensibiliza, o que escandaliza, o que divide, porque é exatamente esse tipo de conteúdo que retém a atenção e gera engajamento. Na avaliação da encíclica, quem controla essas plataformas "tem uma capacidade considerável de influenciar a imaginação coletiva e de apresentar uma visão particular da realidade"(MH 135).
A lógica não é nova. É, no fundo, a mesma lógica que tirou os programas policiais do rádio no final da década de 1980, com expressiva audiência no meio-dia, e os colocou no horário nobre da televisão, transformando as antigas narrações de cenas de crimes e acidentes em entretenimento. O resultado é uma cultura do negativo, em que a boa notícia parece ingênua e a má notícia, realista. Há algo na psicologia humana que produz uma atração profunda pelo que desaba, pelo que escandaliza. Prefere-se acompanhar onde circula o urubu a observar a dança singela do voo da andorinha. Prefere-se o cheiro da decomposição ao perfume da bondade. Não é novidade: já Santo Agostinho diagnosticava em si mesmo o prazer perverso de se deter no que não edifica (cf. Confissões). O que é novo é a velocidade e a escala industrial com que essa tendência é hoje explorada.
Nesse contexto, não é difícil encontrar cristãos que profetizam exclusivamente a condenação: o mundo está perdido, a conversão é urgente sob pena de destruição eterna, e quem age desta ou daquela maneira já pertence ao inferno. O diagnóstico pode ser teologicamente crível, mas pastoralmente ineficaz. Quem já ouve gritar de todos os lados que o adversário é mau e será punido não precisa que a Igreja repita a mesma lógica com vocabulário religioso. O sal que perdeu o sabor, por mais que seja atirado com força, não tempera coisa nenhuma. A Igreja é chamada, na formulação de Leão XIV, a evitar "palavras humilhantes ou antagônicas", optando por "uma clareza que ilumina e uma franqueza que abre novas possibilidades"(MH 14).
São João Batista, aquele que "preparou o caminho do Senhor", é apresentado pela tradição cristã como o último dos profetas e, ao mesmo tempo, como um profeta de tipo radicalmente diferente de todos os seus predecessores. Jeremias morreu apedrejado por anunciar a ruína de Israel como consequência do pecado. Elias profetizou três anos de seca. Ambos eram profetas da crise, anunciadores de que o juízo estava chegando e que a nação colhia o que havia semeado. João pertence a essa mesma linhagem, mas sua profecia tem outra articulação central: não aponta a destruição, aponta o Salvador.
"Não sou digno de desatar a correia de suas sandálias" (Jo 1, 27): essa é a autocompreensão de João. Não é humildade performática, é clareza teológica sobre a diferença entre o mensageiro e a mensagem, entre o dedo que aponta e o horizonte que o dedo indica. João convoca à conversão do coração não como condição para escapar do castigo, mas como disposição para reconhecer quem está chegando. A penitência, em João, é abertura perceptiva, não apaziguamento de um Deus colérico.
Num tempo em que o povo está dividido, é o povo que perde. A divisão não favorece o simples; favorece os que têm poder para explorá-los. A corrupção não tem lado: ela prospera exatamente na medida em que as pessoas estão ocupadas demais odiando umas às outras para perceberem que estão sendo manipuladas. A encíclica Magnifica Humanitas é direta ao diagnosticar que, quando a política se reduz a "estéreis polarizações, o discurso sobre o bem comum perde credibilidade, e ao mesmo tempo crescem as desigualdades e as fraturas sociais"(MH 64). Não é acidente que os processos de desinformação e de radicalização emocional sejam, com frequência, alimentados por interesses econômicos e políticos muito específicos, que lucram com a atenção capturada e com o eleitorado mobilizado pelo medo.
Diante disso, o anúncio do amor de Deus não é ingenuidade política: é o único discurso que escapa à lógica do ódio sem abdicar da verdade. O problema com quem levanta bandeiras morais como arma política é precisamente que a bandeira não corresponde à vida. A profecia que não está encarnada na existência de quem a pronuncia é mera publicidade, não testemunho. E publicidade, por mais sofisticada que seja, incha e murcha com a mesma velocidade. A proposta da Magnifica Humanitas aponta justamente para a construção de uma "civilização do amor" que não se constrói com retórica, mas com a qualidade do testemunho daqueles que a anunciam.
A urgência pastoral, portanto, não é amplificar a voz do profeta da destruição, mas recuperar a voz do profeta que aponta para o Salvador. "Convertei-vos e crede no Evangelho" só faz sentido quando quem ouve esse chamado já foi tocado por uma experiência prévia de ser amado. A conversão não nasce do medo, nem da vergonha. Ela nasce do reconhecimento de que há alguém que ama antes de qualquer mérito e que continua amando mesmo quando ainda não se chegou aonde se deveria. É essa lógica que a encíclica descreve ao afirmar que a Igreja intervém seguindo o exemplo do Bom Samaritano, "com discrição e proximidade"(MH 21) não como tribunal que emite sentenças, mas como presença que acolhe antes de julgar.
Há uma lógica embutida nesse princípio que qualquer enfermo conhece: por mais correto que seja o diagnóstico e preciso o tratamento, se o paciente não confia no médico, a receita vai para o lixo. A confiança não se compra com autoridade; conquista-se com presença e com a certeza transmitida de que o médico está do lado do doente, não contra ele. O mesmo vale para a relação entre o anúncio cristão e o coração humano. Enquanto a Igreja for percebida como um tribunal que emite sentenças, as pessoas vão continuar procurando advogados de defesa em outros lugares. Quando for reconhecida como aquela que acolhe antes de julgar, o confessionário voltará a ser procurado não por obrigação, mas por sede.
João cresce até desaparecer. "É preciso que ele cresça e que eu diminua": [1] essa é a lei de toda profecia autêntica. Quem fica maior ao terminar de falar provavelmente falou de si mesmo. A Magnifica Humanitas lembra que, "na era da inteligência artificial, quando a dignidade humana é ameaçada por novas formas de desumanização, temos o urgente dever de permanecer profundamente humanos"(MH 15). Esse mesmo dever se traduz, na linguagem profética, em permanecer radicalmente cristocêntrico: toda palavra que não aponta para Cristo torna-se, cedo ou tarde, um obstáculo ao próprio Cristo.
"Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo": essa é a frase que a liturgia coloca nos lábios do sacerdote no momento de apresentar a Eucaristia à assembleia. É também a última síntese da profecia de João. Não o Juiz que castiga, não o Legislador que exige: o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Tira, não cataloga, não expõe, não usa como munição. O verbo é decisivo. Num tempo em que tudo é registrado, compartilhado e “weaponizado”, a profecia que a Igreja precisa fazer ouvir é a de que há alguém que não faz isso. Há alguém que carrega para longe aquilo que mais pesa. Essa é a Boa Notícia que o mundo não encontra em nenhum algoritmo, em nenhuma plataforma, em nenhum discurso de poder. Essa é a profecia necessária.