Magnifica Humanitas – Parte 14 – Ninguém Deve Ser Substituído na Construção do Bem Comum
Diocese de Barretos - 26 de agosto de 2026
Magnifica Humanitas – Parte 14 – Ninguém Deve Ser Substituído na Construção do Bem Comum
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Por Pe. Matheus Francisco, Vigário Paroquial São João Batista, Olímpia-SP
Nos parágrafos 68 a 72 da Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV apresenta outro princípio fundamental da Doutrina Social da Igreja: a subsidiariedade. A palavra pode parecer complicada, mas sua ideia é bastante simples: aquilo que as pessoas, as famílias e as comunidades podem realizar não deve ser tomado por instâncias superiores (68). Esse princípio nasce de uma convicção muito bonita: cada pessoa é chamada a ser protagonista da própria vida e a participar da construção da sociedade. Por isso, as estruturas maiores devem ajudar, proteger e coordenar, mas não substituir aquilo que pode ser feito pelas pessoas e pelas comunidades (68). O Estado tem, portanto, uma missão importante, mas não deve ocupar todos os espaços. Desde Leão XIII, a Igreja ensina que a família e a sociedade civil precisam ter liberdade para agir. São João Paulo II também recordava que o Estado deve estar a serviço da sociedade e intervir quando necessário, mas sem assumir permanentemente as responsabilidades das comunidades e organizações menores (69). Subsidiariedade, portanto, não significa deixar cada um por conta própria. Pelo contrário. Significa ajudar sem substituir. Quando uma família, uma associação, uma escola, uma comunidade ou uma organização local pode realizar determinada tarefa, deve ser valorizada e apoiada para fazê-lo (69-70). Esse princípio combate também uma forma de paternalismo que transforma as pessoas em simples receptoras de decisões. O Papa propõe uma cultura de corresponsabilidade: cidadãos que participam, comunidades que se organizam e instituições que escutam (70). Quanto mais próxima das pessoas estiver uma decisão, maior pode ser sua capacidade de compreender as necessidades concretas daquela realidade. Mas Leão XIV leva essa reflexão para uma questão muito atual: o mundo digital. Hoje, algumas das maiores formas de poder não estão apenas nas mãos dos governos. Grandes empresas e plataformas tecnológicas controlam dados, algoritmos, informações, oportunidades econômicas e até aquilo que conseguimos visualizar nas redes (71). Por isso, a subsidiariedade também precisa entrar no mundo digital. Decisões que afetam milhões de pessoas não podem ser tomadas de maneira completamente opaca e unilateral. O Papa fala da necessidade de transparência, responsabilidade, auditorias independentes, clareza sobre os algoritmos, acesso justo aos dados e mecanismos de recurso (71). Os Estados e instituições internacionais também possuem uma responsabilidade: criar regras justas para garantir que escolas, universidades, comunidades, associações e outras instituições possam participar das decisões que afetam a vida das pessoas (72). A mensagem é muito atual: nenhum poder deve concentrar sozinho as decisões que pertencem à sociedade inteira. Na era da inteligência artificial, subsidiariedade significa garantir que a tecnologia permaneça a serviço das pessoas e que as pessoas não se tornem simplesmente objetos das decisões de grandes sistemas tecnológicos. A boa autoridade não é aquela que faz tudo, mas aquela que cria condições para que todos possam fazer sua parte. A verdadeira tecnologia não substitui a participação humana: fortalece-a. Concluiremos nosso estudo do documento papal na coluna de sábado. Shalom minha gente.