Mais que revolução, legado
O Diário - 14 de julho de 2026
KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e membro da cadeira 7 da ABC | @profkarlarmani
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Passado o 9 de julho, ainda é tempo de se falar sobre a Revolução Constitucionalista de 1932. Mil novecentos e trinta e dois é muito vivo na atualidade, pois nunca é demais reforçar a legitimidade da democracia. Neste ano, depois de tantas omissões, a Revolução Constitucionalista de 1932 foi tema de homenagem pelo poder público e pela Polícia Militar. O motivo da homenagem foi a reinstalação do Obelisco da Sociedade Veteranos de 32 em local de melhor visibilidade, na praça do Recinto.
Talvez, mais que a mudança do Obelisco, tenha sido o discurso público que ele gerou. E isso é reflexo do debate cívico que a Revolução Constitucionalista traz à tona todo 9 de julho. No ato solene de reinstalação do Obelisco, em 8 de julho, o 33º Batalhão da Polícia Militar, em tropa, promoveu a leitura da nota oficial sobre a guerra paulista. Nessa leitura, era reforçada a essência que levou os paulistas, unidos entre civis e militares, a travar uma guerra contra o governo que havia suprimido a Constituição republicana: a garantia dos direitos civis e das instituições de poder, a soberania do Estado de Direito e a legitimidade da Constituição e da democracia no país. Esse discurso, construído em 1932 à base de manifestos e artilharia, manteve-se vivo ao longo das mais de nove décadas do episódio. Cada época posterior interpretou-o de uma forma, construiu memórias e identidades. Cabe a nós fazermos a nossa releitura e mantermos viva – e em vigília – a democracia tão almejada por aquela sociedade.
Por outro lado, o ato solene abriu espaço para mostrar o quanto o Obelisco fazia sentido em seu local original: a praça Nove de Julho. Inaugurados em 23 de maio de 1970, a praça, o Obelisco e as bandeiras que o adornavam compunham o verdadeiro monumento em homenagem aos homens e às mulheres combatentes de 1932 e à causa da reconstitucionalização do país. Desmantelando a praça, é como se se tirasse o cenário de toda uma obra de arte e deixasse apenas uma parte. Suprimiu-se o contexto. No entanto, já que a praça não mais existe, espera-se que o Obelisco continue a contar a história de 1932 — e a de 1970, como a ponta de uma espada de um monumento grandioso.
Mais que a própria revolução, o importante é o seu legado.