Maria, Mãe de Deus e o Dia Mundial da Paz: A Paz que Nasce do Acolhimento
Diocese de Barretos - 2 de janeiro de 2026
Por Dom Milton Kenan Júnior, Bispo de Barretos
Compartilhar
No primeiro dia do ano civil, a Igreja celebra a Solenidade de Maria, Mãe de Deus, ao mesmo tempo em que se une à humanidade na celebração do Dia Mundial da Paz. Essa convergência não é meramente simbólica, mas profundamente teológica: a paz cristã nasce do mistério da Encarnação e encontra em Maria o seu primeiro e mais pleno acolhimento. Ao iniciar um novo ano sob o olhar materno de Maria, a Igreja proclama que a verdadeira paz não é fruto apenas de acordos humanos, mas dom de Deus, oferecido ao mundo em Jesus Cristo, o Príncipe da Paz. O título Mãe de Deus (Theotókos), proclamado solenemente no Concílio de Éfeso (431), não se refere primeiramente a Maria, mas a Cristo. Ao afirmar que Maria é Mãe de Deus, a Igreja confessa que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, uma só Pessoa em duas naturezas. Celebrar Maria como Mãe de Deus é, portanto, professar a fé no mistério central do cristianismo: Deus entrou na história humana, assumindo nossa carne, nossas dores e nossas esperanças. Maria é a mulher do “sim”, pela qual a paz de Deus começa a habitar o mundo não como imposição, mas como dom acolhido. A maternidade de Maria revela o modo como Deus age: não pela força, mas pela ternura; não pela dominação, mas pela proximidade. A paz cristã nasce dessa lógica divina, tão diferente das lógicas do mundo. Maria ensina que a paz começa no coração que escuta; cresce na confiança em Deus; amadurece na entrega obediente; e se concretiza no serviço silencioso. Ao gerar Cristo, Maria gera Aquele que reconciliará o céu e a terra. Sua maternidade não é apenas biológica, mas profundamente espiritual: ela se torna mãe de todos os que são chamados a viver como filhos de Deus e construtores da paz. Instituído em 1967, o Dia Mundial da Paz recorda que a paz é vocação e responsabilidade de todos. A Igreja, ao celebrá-lo no mesmo dia da Solenidade de Maria, indica claramente que não há paz autêntica sem conversão do coração. A paz cristã não é ausência de conflitos, mas presença de justiça; não é simples equilíbrio de forças, mas reconciliação; não é indiferença, mas solidariedade ativa; não é fruto do medo, mas do amor que vence o egoísmo. Maria, mulher pobre e confiante, mostra que a paz começa nos pequenos gestos, na escuta do outro, na fidelidade cotidiana ao projeto de Deus. Ao longo do Evangelho, Maria aparece como mulher da interioridade: guarda tudo no coração, medita, silencia, confia. Essa atitude é profundamente contracultural num mundo marcado pela pressa, pela violência verbal e pela polarização. Ela educa os cristãos para uma paz que nasce da oração; se fortalece na humildade; resiste às provações; e permanece mesmo em meio à cruz. Que Maria, Mãe de Deus e Mãe da Paz, interceda por nós e nos ajude a ser, no mundo de hoje, artesãos da paz.



