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Meio-dia

O Diário - 18 de setembro de 2026

Meio-dia

Cláudia Lima é cirurgiã-dentista 

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O sol está sempre a pino.

O silêncio sepulcral abraça todo espaço. Eu vou lendo nomes, vendo fotos, encontro conhecidos, paro um pouco, rezo um pouco e sigo. Alguns têm flores novas, coloridas, mimosas, outros flores de plástico, outros nada. O sol arde no corpo porque há falta de árvores, ainda assim o vento do descampado dá uma sensação de alívio do calor. Lá é sempre assim: sol escaldante, vento intenso. Hoje a visita foi mais tensa, fui sozinha. Lá é tão solitário que sempre que entro me lembro do conto de Clarice Lispector, venha ver o por do sol e um pouco de tensão permanece em mim durante todo trajeto. Vejo minha família, organizo as placas. Eles sorriem e olham pra mim. Jamais imaginei que eu iria com tanta frequência ali. Vou para ver se está tudo em ordem, mas vê-los sorrindo e juntos naquele espaço cuidadosamente criado para eles traz uma sensação de pertencimento que eu nunca imaginei sentir nesse espaço. Meus cabelos voam e se emaranham. É impossível mantê-los em ordem. Faço uma pequena prece e me despeço. Volto como quem passa na rua em frente a casa de colegas, amigos, às vezes me deparo com alguém conhecido em uma foto. Vou saindo reflexiva. A velhice que chega traz um olhar único para a vida que eu gosto de sentir, a finitude. A igualdade da finitude. Ao menos no fim somos todos iguais. Ainda assim insistimos nas diferenças enquanto vivemos.

Faço o sinal da Cruz e me afasto de ré. Curvo a cabeça. A morte é nossa grande mestre. Olho uma última vez para trás. O sol continua impiedoso.

A sombra é que, em vida, inventamos para cada um.