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Metáfora

O Diário - 21 de dezembro de 2025

Metáfora

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Mackenzie

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Figura semântica

Você já deve ter dito que o “tempo voa”, sem perceber que, nesse momento, abandonou o dicionário comum para criar poesia no cotidiano. Essa troca de nomes, em que uma coisa passa a ser outra por causa de uma semelhança escondida, é o que chamamos de metáfora. Longe de ser apenas um enfeite para escritores, ela é uma ferramenta poderosa que funde realidades diferentes. Aliás, dois caminhos ajudam a entender esse truque da mente: a troca direta de sentidos que ignora o “parece” e a capacidade de transformar sentimentos abstratos em imagens que todos conseguem enxergar.

A primeira lição para entender essa figura é notar a troca direta de significado que acontece sem o uso de palavras de comparação. Se escrevemos “aquele rapaz é como um gato”, damos um passo cauteloso, apenas aproximando ideias de forma externa. Contudo, ao dizer “aquele rapaz é um gato”, damos um salto e fundimos as duas imagens em uma só. Nesse momento, o verbo “ser” deixa de indicar uma característica passageira para criar uma identidade simbólica em que o sujeito se torna o próprio objeto. 

Outro segredo que torna esse recurso indispensável é a habilidade de transformar ideias complicadas em imagens que podemos quase tocar. É muito mais fácil sentir o peso da idade quando falamos das “mãos do tempo” ou entender a intuição ao mencionarmos “os olhos da alma”, pois essas expressões dão corpo ao que é invisível. Esse jogo de palavras mostra que a gramática não é uma prisão, mas um baú de tesouros que oferece as ferramentas certas para criar mensagens claras e emocionantes. A metáfora é a figura de linguagem que tira a frase do lugar comum. 

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Mackenzie