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Não era o imperador

O Diário - 3 de fevereiro de 2026

Não era o imperador

KARLA ARMANI, historiadora e cadeira 7 da ABC - @profkarlaarmani

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            A história de Barretos só tem sabor por causa das crônicas que o tempo ainda não apagou. Barretos de Outrora, escrito por Osório Rocha, traz um cardápio de narrações, fruto de entrevistas colhidas pelo autor com pessoas mais velhas, que são verdadeiros presentes deixados pela memória. Por mais que muitas dessas histórias pareçam variações, elas refletem a mentalidade da época e dão cores vivas ao passado. São deliciosas.

            Uma dessas crônicas, com falas reproduzidas até com sotaques, é a vinda do primeiro trole a Barretos. O ano era 1887, o arraial era composto por poucas casas, uma ou outra rua de terra no centro e a população estava acostumada apenas com o transporte de cavalo ou carros de bois. Eis que, de repente, os habitantes se depararam com um trole – uma espécie de carruagem rústica de tração animal. Dentro do trole, estava uma família vinda de Limeira, o major José Machado de Barros, seu filho de 4 anos e a esposa. Todos trajados com vestimentas finas, o homem de paletó comprido e chapéu, a mulher com capa cinza e o menino de terninho à marinheira. Isto é, além da novidade do trole, havia também a surpresa com os trajes e a postura da família. O trole era conduzido por um empregado, descrito como um “caboclão forte”, e era puxado por cavalos. 

            Interessante foi a reação das pessoas e a maneira como Osório descreve o diálogo entre elas. Ele reproduziu as falas entre um grupo de mulheres que avistaram o trole perto do córrego e tentavam entender do que se tratava. Uma delas exclamou: “É carrocha. É a carrocha do Imperador. Quando eu fui batizar minha fia no Jabuticavá, vi lá u’a dessas”, acrescentando que o imperador estava mesmo em Jaboticabal. A outra, contradizendo, garantiu que era uma carruagem, dizendo que já tinha visto outras assim. Ao passo que a última afirmou (acertando): “Não é nada disso, é um trole!”. E não é que o trole atolou nas ruas de Barretos? O lamaçal, em frente a um hotel, obrigou o condutor e o major – todo engomado – a saltarem da condução e darem um jeito naquela lama. 

            Aos olhos dos barretenses daquela época, o trole parecia uma carruagem e o homem bem trajado lembrava o imperador. Mas não era. Eram as novidades, com ares de modernidade, chegando – de trole - ao velho arraial. 

KARLA ARMANI, historiadora, membro da cadeira 7 da ABC - @profkarlaarmani