No topo, o galo
O Diário - 7 de julho de 2026
KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora | @profkarlaarmani
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Quanto mais delicado um detalhe, mais interessante pode ser para a história de Barretos. Foi assim que pensei quando vi a figura de um galo, no catavento de ferro, que repousa no topo da Catedral do Divino Espírito Santo. O catavento em forma de galo foi colocado sobre o zimbório – uma pequena torre que marca o centro da cúpula octogonal, com seus lindos vitrais. Esse conjunto está na parte mais alta do presbitério, última parte edificada das quase três décadas de construção da Catedral de Barretos, entre 1893 e 1920.
A figura do galo no catavento chega a ser poética. Desde a Idade Média, no século IX, as igrejas passaram a ter o galo no alto de seus campanários por incentivo do papa Nicolau I, como uma recordação da passagem bíblica de São Pedro. Conforme registram os Evangelhos, após a prisão de Cristo, Pedro o negou três vezes, mas quando o galo cantou ele lembrou-se das palavras de Jesus e se arrependeu profundamente, uma vez que antes disso Jesus lhe havia dito: “Antes que o galo cante, três vezes me negarás”. Assim, a figura do galo nas igrejas passou a simbolizar o arrependimento, a vigilância espiritual e a vitória da luz sobre as trevas.
Foi no livro “O Coração de Barretos”, de autoria de José Paulo Lombardi, que, além dessa passagem de São Pedro, li uma reflexão ainda mais bonita sobre o galo: é ele quem anuncia a chegada de um novo amanhecer, saudando com o seu canto o nascer do sol, assim como “também a Igreja é a anunciadora de um novo amanhecer para a humanidade”.
É interessante perceber como um símbolo arquitetônico e funcional, pois ele é um catavento, isto é, um artefato meteorológico, ganha simbolismo e reflexão por pertencer a um conjunto religioso. No topo, junto à rosa dos ventos e as setas, o galo se direciona conforme a dança do vento e é iluminado pelo primeiro e pelo último raio do sol. Já debaixo dele, para os fiéis, ele ali está para anunciar a palavra e a vigilância.
Parece tão delicado, mas, na mesma medida, é tão carregado de símbolos.