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Nunca é apenas um discurso

O Diário - 14 de outubro de 2026

Nunca é apenas um discurso

KARLA ARMANI MEDEIROS Historiadora e membro da cadeira 7 da ABC | @profkarlaarmani

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Assim que eu soube que seria agraciada com o título de Cidadã Benemérita de Barretos, depois da euforia, logo me veio a responsabilidade. O peso desse título subiu à consciência quando pensei no discurso que eu proferiria na solenidade. Tinha de ser um discurso em que transparecesse a gratidão pelo reconhecimento do meu trabalho, o respeito pelos historiadores que me antecederam, a esperança no futuro da cidade e, principalmente, a minha reverência por Barretos. O discurso era o mais importante. Essa visão vem da minha própria experiência enquanto historiadora. Como parte do meu trabalho, passo o dia lendo jornais e documentos; e boa parte deles é discurso manuscrito ou impresso. Recentemente, em um texto, usei um trecho do discurso que o dr. Paulo Prata proferiu na Câmara Municipal, em 1978, quando se tornou Cidadão Honorário de Barretos. Quando precisei escrever o meu discurso, foi nesse que me inspirei. O discurso do dr. Prata expressava profunda gratidão por Barretos e vislumbrava, para um futuro distante, a construção de um novo hospital – cujo êxito já conhecemos. Diante disso, enxerguei que os discursos nunca podem ser rasos. Independentemente do orador, da ocasião e do público, eles carregam o peso da intenção. Um discurso se constrói com a arquitetura do raciocínio, as referências literárias, o repertório cultural, a seleção de temas, o destaque a determinadas frases, a entonação das palavras, a teatralização das expressões e, principalmente, a intenção do recado. Tudo isso é, antes de tudo, humano. Por isso, talvez, o maior desafio para o público de hoje e para o historiador do futuro seja identificar e analisar os discursos produzidos pela Inteligência Artificial. Essa ferramenta, tão maravilhosa e importante para o trabalho operacional, quando usada para produzir textos que deveriam nascer da inteligência humana, resulta em um mar de linhas rasas, sem construção, intenção e assinatura. São só palavras bonitas, mas sem produção intelectual e autoria. Automáticas. Um orador deve respeito ao público, afinal, seu texto nunca é apenas um discurso: é um registro à posteridade. Ele vira notícia. 

E é nele que se encontra espessura humana.