O Anchieta de Barretos
O Diário - 6 de outubro de 2026
KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e titular da cadeira 7 da ABC | @profkarlaarmani
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O coronel João Carlos de Almeida Pinto é uma das figuras históricas mais interessantes do passado da cidade. Defensor da República, ele foi o responsável pela instalação do novo regime político em Barretos, bem como por todo o fervor e o espírito dessa novidade. As linhas abaixo dão conta de sua autoridade nesse assunto.
Era o ano de 1890, quando o Brasil era uma República, mas o povo ainda se acostumava com ela. Em Barretos, não era diferente. Havia os monarquistas, o isolamento, as tensões e os boatos. Em 13 de setembro, os eleitores se preparavam para a primeira eleição geral da República, marcada para o dia 15, na qual iriam eleger os senadores e os deputados do Congresso Nacional Constituinte. Ocorre que, de repente, chega um grupo de 18 homens vindos do Marimbondo, atual Icém, para salvar o vigário e a igreja, que, segundo um boato, seriam destruídos pelos republicanos.
Embora o vigário tenha agradecido a intenção do grupo de sertanejos católicos, o delegado, Fernando Mauro Brazil, percebeu o quanto aqueles boatos incutidos em gente simples poderiam gerar problema e até violência. Foi então que ele resolveu usar outro tipo de “arma”: a palavra. Recorrendo ao cel. Almeida Pinto, conciliador, o delegado solicitou que o Clube Republicano oferecesse conferências aos eleitores no sentido de conscientizá-los. O professor José Ribeiro d’Escobar e o advogado Thomaz Antônio D’Oliveira proferiram seus discursos, assim como o próprio Almeida Pinto. Nessa ocasião, ele ficou conhecido na imprensa como o “Anchieta de Barretos”, o verdadeiro catequizador da República, tanto pelo seu caráter civilizador quanto pela ironia dirigida a certos grupos católicos que ainda não aceitavam a República. Disse o jornal Correio Paulistano: “O Anchieta de Barretos, esse bravo republicano que arriscando sempre a vida por amor da pátria e da liberdade, já tem uma grande glória, a de transformar Barretos monarquista e semi-selvagem em Barretos republicano e civilizado”. A eleição aconteceu, e os republicanos receberam 368 votos em Barretos. A cidade participava, assim, da escolha dos que escreveriam a primeira Constituição republicana.