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O guardião das bicicletas de Barretos

O Diário - 16 de novembro de 2025

O guardião das bicicletas de Barretos

TRADIÇÃO: Lazzarini contou que o gosto pelas bicicletas foi herdado do pai

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Edson Lazzarini, conhecido como o Senhor Lazzarini da bicicletaria da avenida 29 é nosso entrevistado do mês de novembro. Seu pai, Hugo Lazzarini iniciou o negócio de bicicletaria em 1894.  Hoje, Edson Lazzarini é um incansável comerciante que possui a bicicletaria mais antiga de Barretos e serve os ciclistas barretenses e regionais.  Edson nasceu em Barretos, filho de Hugo e Ercília Lazzarini, e vem de uma família grande e unida. Tem sete irmãos: Carmen, Berenice, José Lazzarini Neto, Celso, Eliana e Laís Lazzarini — todos também barretenses. Ainda hoje continua com o mesmo carinho e atendimento perfeito, fazendo de tudo para agradar seus clientes. 

Conhecia o senhor Lazzarini pois muitas vezes levei as bicicletas dos meus filhos, ainda crianças, para consertar e afirmo que nunca perdeu a postura gentil para atender uma criança ou um adulto. Decidi entrevistá-lo visto a grandeza de alma desse barretense conhecido por muitos e que já lhe prestou serviço. Quem nunca levou uma bicicleta para o senhor Lazzarini consertar? Compartilho a conversa com esse verdadeiro herói do dia a dia.

“Edson Lazzarini - Herói do dia a dia”

Rosa:  Quando seu pai morreu? 

Edson: Meu pai morreu no dia 25 de agosto de 1984.

Rosa:  Desde aquela época você toma conta da bicicletaria? 

Edson:  Não, muito antes, porque ele tinha passado a firma para mim antes de se aposentar. 

Rosa:  Desde aquela época que você fica sozinho aqui?

Edson:  Eu tinha uma cunhada que era sócia. Ela ficou pouco tempo, mas a maioria eu fiquei sozinho.

Rosa:  Edson, qual  é o desafio que você mais encontrou aqui?

Edson:  A loja deu muito trabalho, exigiu muitos sacrifícios, pois trabalhei a maior parte do tempo sozinho. Faltou dinheiro, faltou mercadoria, mas com muito trabalho consegui superar todos os desafios.

Rosa:  Me diz uma palavra que resume seu trabalho?

Edson:  Perseverança, virtude que pouca gente tem.

Rosa:  Como funciona o seu negócio?

Edson:  O meu negócio tem altos e baixos.

Rosa:  O que seriam altos e baixos?

Edson:  Por exemplo: esses altos e baixos é quando a fábrica lança uma bicicleta da moda, vende-se muito. Depois cai aquela moda, ficamos sem vender, depois vem outra novidade, volta-se a vender. Como na moda da bike 18 marchas, depois veio 21 marchas, então são assim os altos e baixos do negócio.

Rosa:  O que seu negócio representa para a comunidade barretense?

Edson:  A bicicleta é um veículo mais simples, um meio de locomoção mais  barato para a comunidade. Então, é por isso que me acostumei desde criança mexer com bicicletas e até hoje não parei, porque sempre tem cliente, sempre tem serviço.

Rosa:  Você tem bastante relação de amizade com os clientes?

Edson:  Com os clientes, tenho. Todo empresário deve ter um relacionamento grande com o cliente, isso é muito bom e necessário.

Rosa:  Você já teve alguma história com seus clientes que possa me contar? 

Edson:  Não, porque é tudo breve, e tudo rápido. O cliente compra a bicicleta e vai embora, traz a bicicleta para consertar, deixa aqui e depois volta para buscar. Ninguém tem muito tempo disponível para ficar conversando. 

Rosa:  Você já arrumou uma bicicleta para uma criança? 

Edson:  Sim, para muitas crianças.

Rosa:  Me fala uma coisa que representa a sua trajetória?

Edson:  Eu nunca tive interesse de ficar rico ou ficar bem de vida. Eu luto pela minha sobrevivência. Sabe, os clientes vêm e pedem um orçamento. Eu faço o orçamento e sabe o que eles falam para mim? Mas você tem certeza de que é esse valor? Você faz tudo isso? Eles falam assim, eu já fui em dois, três lugares, é o dobro do seu preço!
Eu digo para minha mulher, para que cobrar caro? Eu não tenho filho, para que eu vou ficar com ganância de dinheiro? Vou virar um mercenário para deixar herança para quem?
Rosa:  Você é um herói, Edson?

Edson:  Eu tive uma professora muito intelectual que era a senhora Lídia Scanavino. Ela falava que o trabalho dignifica as pessoas. Ela morava em frente ao correio, e contava sempre essa história. No tempo da ditadura, viu um soldado levando um ramalhete de flores para despachar no correio. Ela ficou admirada. Nunca pensei que um soldado ia carregar um ramalhete de flores para despachar! Foi a melhor professora que eu tive na minha vida. Ela dava aula de geografia. Falou para mim na década de 60: o dia que o Brasil descobrir que é o maior celeiro agrícola do mundo, vai ser o país mais rico do mundo. Só agora eles estão descobrindo isso. E ela falou isso há muito tempo! É porque o Brasil tem de tudo.
Tem gente que fala que Portugal, Espanha, Itália, França, são ricos, mas são pequenininhos, eles são um pedaço de um estado nosso. Não tem a riqueza que nós temos. A professora Lídia falava também que no Brasil tudo que planta  dá, porque no Brasil o verão é oito meses e o inverno somente quatro, ao contrário dos países da Europa. O Brasil tem mais sol, e as plantas gostam de sol!

Rosa:  O que você acha do celular para comunicação?

Edson:  Depende de quem usa.

Rosa:  Mas para você  ajuda muito?

Edson: Eu preciso para melhorar   minha comunicação com as pessoas.

Rosa:  Terminamos Edson! Quero saber que conselho você daria para quem está começando?

Edson:  Para quem está começando tem que abrir as portas, pôr uma variedade de estoque bem-organizado: O que mais usa, o que mais vende na profissão dele, tem que comprar mais o que vende. Aí depois que começar a fazer a freguesia vai evoluindo e melhorando o estoque da loja. Para os barretenses eu diria: Amem o Brasil, amem Barretos, amem sua família e trabalhem. 

Somente assim a felicidade é completa.

POR Rosa Carneiro