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O país do fato consumado

O Diário - 7 de novembro de 2025

O país do fato consumado

Marco Antonio Teixeira Correa

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“Fato consumado”, expressão do juridiquês, que muitas vezes escutei de meu pai em algumas situações — por exemplo, quando ele me dizia para não fazer algo que, com certeza, daria errado, e eu, mesmo assim, fazia. Lógico, acontecia o previsível, e ele vinha e falava:

— Agora não adianta chorar, isso é fato consumado. Vamos ver o que fazer para arrumar.

O Brasil é assim: o país do fato consumado. Impressionante como, diariamente, nos deparamos com situações que terminam em tragédias ou catástrofes — sem contar aquelas nem tão graves, mas que repercutem. Situações que, muitas vezes, estão ali escancaradas, como dizia um amigo: aquelas que até as criancinhas do maternal tinham conhecimento. Mas as pessoas que, de fato, poderiam evitar o desfecho indesejado fingem que não estão vendo ou sabendo; fazem-se de cegas.

As cegueiras — assim como o “milagre” da recuperação da visão — são por conveniência. Aquele raciocínio nefasto: calcular se a exposição vai ser positiva ou negativa, se vai ganhar ou perder apoio. Os predadores do Planalto Central não estão nem aí com você ou comigo. Não se preocupam com a população, apenas em sobreviver e encher seus bolsos.

A história da ponte que caiu: todos sabiam que ela estava condenada. Fizeram denúncias, filmagens, publicaram em redes sociais — e nada foi feito. Após a queda, fato consumado, começaram, de início, a procurar culpados; depois, surgiram as propostas e, claro, os “salvadores da pátria”. Hipócritas. No caso do metanol nas bebidas, foram necessárias várias mortes — fato consumado — para, em poucos dias, descobrirem e fecharem fábricas clandestinas que estavam em atividade há muito tempo. Novidade.

No Rio de Janeiro, desde sempre, as facções aterrorizam a população, extorquem, torturam, matam — e o Estado não se faz presente. Muitas vezes, na minha opinião, opta por tentar uma convivência “pacífica”, o que o crime organizado agradece, sabendo aproveitar para crescer e aumentar sua presença. O Estado perdeu o controle: fato consumado.

Ali, traficantes têm à sua disposição armamento pesado, tecnologia, treinamento e estão infiltrados em todas as camadas da sociedade. Nosso presidente, para “ajudar”, disse a uma seleta plateia de diplomatas e executivos que o traficante seria vítima do usuário de drogas.

Nesse caso, o comentário de um deputado federal foi de que, assim, o PCC seria daqui a pouco considerado uma ONG. Seria engraçado, não fosse a asneira dita pela maior autoridade de nosso pobre Brasil.

O rompimento das barragens de Mariana (2015) e Brumadinho (2019) — catástrofes ambientais imensuráveis —, acontecimentos com quatro anos de diferença um do outro, fato consumado e confirmado de que existiam e ainda existem problemas com as barragens, nem isso evitou a ocorrência do segundo evento. Ou seja: a comoção é momentânea. E que venha a próxima catástrofe, o próximo fato consumado.

Poderia ficar aqui listando situações e exemplos em que a ineficiência, o descaso e a corrupção, dentre outras coisas, tiveram desfechos trágicos. Enquanto isso, nossos políticos — aqueles que poderiam estar olhando pro país proativamente — estão apenas ali, encastelados, fazendo negócios e propondo leis e projetos que lhes garantam mais proteção contra as leis que servem para todos, menos para eles. Além, claro, de encontrar maneiras de surrupiar mais dinheiro para seus próprios projetos.

Inclusive, o Judiciário toma decisões que dificultam ou anulam ações que poderiam melhorar nosso país, nos amordaçando e engessando.

Assim, tristemente, vamos ficando descrentes com o nosso Brasil e vemos que eles, os políticos, ficam apenas naquele discurso de direita/esquerda. Enquanto isso, as tragédias, as catástrofes e as organizações criminosas — estas, sim, não têm lado. Aliás, até agradecem e torcem para que essa polarização se perpetue.

Fato consumado.