O quintal encantado
O Diário - 28 de janeiro de 2026
Claudia Lima
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A modernidade chegou, enfim, à casa dos meus tios. Foram cinquenta anos vencendo o ritual simples de descer uma pequena rampa que dava acesso à sala principal — leia-se na verdade, varanda — dos encontros familiares. Um espaço que nunca foi apenas varanda: era abrigo, era espera, era celebração. Ali conviviam as samambaias em silêncio verde, uma mesa de madeira de quatro lugares encostada à parede, algumas cadeiras de corda plástica à frente e as cadeiras de madeira que pertenciam à mesa. Quando o número de visitas ultrapassava o previsto — e quase sempre ultrapassava — buscávamos as cadeiras da cozinha, três degraus abaixo, como quem amplia o mundo para caber mais gente.
A sala “verdadeira”, essa formal e distante, poucas vezes pisei. E quando pisei, foi apenas de passagem, rumo a esse território sagrado que conectava a casa à cozinha e, depois, ao quintal. Era ali que a vida acontecia. Ali rimos alto, celebramos casamentos e nascimentos, choramos as partidas implacáveis — as repentinas e também as longamente anunciadas. Ali o tempo parava para o café.
O café da tia Conceição. Sempre magrinha, vestida de flores miúdas e claras, como ela mesma. Preparava-o na cozinha de fórmica azul, entre panelas de alumínio reluzentes. O aroma se espalhava, misturando-se às conversas, às lembranças e aos silêncios respeitosos.
Ao fundo, o quintal mágico permanecia lá — testemunha silenciosa de tudo.
A modernidade chegou, enfim, à casa dos meus tios. Não como promessa, mas como ruptura. Máquinas enormes avançam, arrancam paredes, telhados, árvores. Em breve, alcançarão o quintal encantado. Logo, tudo será apenas terra revolvida e, depois, uma construção faraônica, modelo século XXI — alta, impessoal, sem memória. Ainda assim, o encanto não se desfaz. O quintal permanece inteiro na lembrança de cada um que ali esteve. Permanecem os ecos dos diálogos atravessando o tempo, as gargalhadas suspensas no ar, os silêncios compartilhados. Permanecem os rostos — vivos, nítidos, presentes.
Esse é o verdadeiro encanto: a imortalidade daquilo que foi amado. O que se amou não se demole. É eterno.
Cláudia Lima - Ortodontista



