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O retrato das coisas que ficam

O Diário - 10 de junho de 2026

O retrato das coisas que ficam

Claudia Lima é cirurgiã-dentista

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Tem gente que não gosta da própria casa. Eu gosto da minha. Ela guarda as memórias de quem eu fui e a medida certa de tudo o que me transformei. Tem móveis do meu pai, da minha avó, da minha mãe, do meu irmão. Tem móvel que comprei pensando na minha filha muito antes de ela nascer: a cama dela. E ela adora a tal cama. É lá que sonha o futuro, cercada pelos quadros dos seus ídolos pop, construindo silenciosamente os dias que ainda virão. O quarto da minha mãe permanece, agora destinado às visitas. Muitos me disseram para mudar para lá, mas eu preferi preservá-lo livre, como minha mãe está agora e transformá-lo em abrigo para quem chega. Montei a antiga da minha mãe, coloquei um bom colchão e uma bela colcha. Quem vem nos visitar é rei ou rainha na casa, um símbolo de tudo que minha mãe foi para nós. Há cômodos como a sala que parecem ter sido transferidos por um Ctrl C, Ctrl V da casa da minha mãe. A sala de TV é assim. E que aconchego há em sentar no sofá que atravessa perfeito e atual mais de 40 anos de história familiar. Existem ainda os álbuns de fotos para quem quiser se reencontrar jovem, criança ou bebê. E sempre há um sobrinho disposto a relembrar. Fui uma tia presente, tenho muitas fotos deles. Da sala de visitas vemos as árvores da praça. Ao longe, a piscina de casa nos acalma, e as árvores frutíferas me lembram que meu irmão segue vivo. Ele as plantou com tal zelo e cuidado que hoje suas copas explodem aos olhos de quem toma café na sala de jantar pela manhã. Ali, o toca-discos comprado por meu irmão em 1984 continua sendo a joia da casa. Há LPs que são verdadeiras relíquias, há clássicos da MPB, o idioma musical preferido por quase todos nós. Quando construí tudo isso, imaginava que a família se reuniria a cada fim de semana. Por um tempo foi assim. Mas alguns partiram, outros cresceram, mudaram de cidade, de país. E a vida, sempre generosa, trouxe os amigos, que se alternam ou se misturam à família que visita. Numa sincronia perfeita para manter a casa exatamente do jeito que ela quer. Sim, minha casa tem personalidade.

Um dia, talvez eu mude de casa, de cidade, de país. Mas esta casa cheia de sol, de árvores e de histórias existirá para sempre em mim. Porque as casas que amamos nunca ficam apenas no endereço onde foram construídas. Elas continuam morando dentro de nós.