O sacristão: entre o altar e a sovela
O Diário - 24 de março de 2026
KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e ocupante da cadeira 7 da ABC / @profkarlaarmani
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Por si só, a palavra “sacristão” já causa curiosidade. Vindo do latim medieval “sacristanus”, o termo indica “aquele que auxilia em tarefas sagradas”. Isto é, na Igreja Católica, o sacristão é o responsável por zelar da sacristia, preparando o altar, os objetos litúrgicos e as vestes sacerdotais para as celebrações. Uma figura ímpar. Vejamos o exemplo do primeiro (ou um dos primeiros) sacristãos da paróquia do Divino Espírito Santo de Barretos, entre o final da década de 1870 e início de 1880, quando ainda existia a primeira capelinha e foi construída a segunda. Ele era uma figura tão interessante quanto o próprio cargo prediz. Ou seja, se é sacristão, não lhe faltariam histórias a narrar.
Chamava-se Joaquim Marques de Oliveira, mas esse era um nome comum demais para um sacristão. Era, então, conhecido pela alcunha de “Marques Sovela”. “Sovela” vinha da sua profissão de sapateiro: era o nome daquela ferramenta utilizada para perfurar o couro antes da costura. Sovela era o responsável por cuidar da igrejinha (que àquela época também servia de escola para as crianças), dos paramentos e do pároco, além de zelar pelo “campo santo” – o cemitério. Sim, era uma espécie de coveiro quando precisava (inclusive, é ele o personagem da lenda do “rabo da cachorra” que essa historiadora já escreveu por aqui).
Conta-nos Osório Rocha, em seu Barretos de Outrora, que Marques Sovela era uma figura popular, caricata e assustadoramente travessa. “Feio, curvo, [com] derramadas barbas amareladas de rapé”, caminhava pela vila apoiado em seu cajado de peroba, apavorando as crianças com seus impropérios — “mandinga de sapo seco”, “urina de serelepe”. Era do tipo que assustava, mas que depois fazia rir. Tanto que, certa vez, ele produziu foguetes para soltar em uma festa, mas os estampidos atingiram as pessoas. Já em idade avançada, era sempre saudosista de sua terra natal: Perdões/MG. Nascido em 1824, era um velho contador de casos sobre o seu tempo de jovem, quando tocava clarineta e fazia serenatas. Dizia a todos que não gostava dos costumes do povo de Barretos, mas passou a maior parte de sua vida nesta vila, onde também foi enterrado.
A vida do sacristão Sovela é um deleite à imaginação e um prato cheio às crônicas.



