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O “Santo” de Barretos

O Diário - 9 de setembro de 2026

O “Santo” de Barretos

KARLA ARMANI MEDEIROS Historiadora e membro da cadeira 7 da ABC | @profkarlaarmani

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Há um personagem na história de Barretos que merecia ser conhecido por todos: Francisco Miotti, o Santo. Uma figura real que, por muito tempo, ficou marcada na memória dos barretenses e possivelmente serviu de inspiração para a composição do romance “Mau Olhado”. Publicado por Veiga Miranda em 1919, o livro, uma obra refinada, foi reeditado pela Edusp na coleção Reserva Literária, em 2013. Em forma de romance, o livro propõe uma reflexão interessante sobre como o fanatismo religioso fazia parte da vida rural do interior brasileiro, inclusive em Barretos, na Primeira República. A falta de ciência e de leis, somada ao mandonismo e ao isolamento, repercutia em um fanatismo formado por “profetas”, que, na prática, exerciam uma religião sem forma. E perigosa. Em “Mau Olhado”, o autor apresentou o personagem “Lelé”, sacristão, boticário e curandeiro que se transformou em um suposto “profeta” e prometia resolver a peste, a fome e a “guerra” — em meio a muita mentira. Mesmo o narrador deixando claro que tudo aquilo não passava de crendice, superstição e ignorância, o trágico final do romance indica que até o acaso parecia contribuir com as profecias. Era uma atmosfera de coincidências e tragédias.  Como Veiga Miranda já estudava Barretos antes de publicar o livro, é bem possível que ele tenha conhecido as histórias sobre Chico Miotti. Um italiano que, perambulando pelas áreas rurais de Barretos a partir de 1908, reuniu multidões que o seguiam pelas fazendas em ladainhas e rituais. Fazendeiros permitiam a sua instalação e muitas pessoas tinham o seu retrato em casa, onde rezavam pelo “Santo”. O aumento dos seguidores chamou a atenção do governo de São Paulo, que enviou a Força Pública, capitaneada pelo temível tenente Galinha, para capturar o Santo. Apreendido em 1911, ele foi levado para o Hospital Psiquiátrico de Juqueri, onde faleceu em 1932. Sozinho. 

Ao ler as páginas do sofisticado Veiga Miranda, fica impossível não associar Lelé a Chico Miotti (e até imaginar o destino dele). É a literatura a fonte que mais denuncia uma sociedade. E a mais fecunda para a História.