O telhado que não se vê
O Diário - 17 de dezembro de 2025
Aparecido Cipriano
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As discussões sobre as chamadas “cotas” têm ocupado cada vez mais espaço nas conversas e nas redes sociais. Muitas vezes, porém, o debate nasce mais do desconhecimento do que da reflexão. Histórias de trabalho duro e superação merecem respeito, mas não anulam uma realidade evidente: nem todos largam do mesmo ponto. A cota não trata de falta de esforço, e sim de desigualdade histórica de oportunidades. O caminho até a chegada nunca foi igual para todos. O destino pode até ser o mesmo, mas o caminho não é.
Para entender isso estudiosos recorrem à chamada Teoria do Telhado de Vidro. Não se trata de uma lei, nem de uma regra explícita. É uma barreira invisível que surge justamente quando determinados grupos — especialmente mulheres, pessoas negras e minorias — tentam alcançar posições mais altas de poder, prestígio e remuneração.
Esse telhado aparece de várias formas: promoções que não vêm, salários menores para a mesma função, estereótipos que pesam mais que o currículo e portas que parecem sempre fechadas para alguns. Ele é de vidro pois, à primeira vista, tudo parece igualitário. Mas, quando se tenta subir, há quem bata em limites que outros jamais percebem.
Importante dizer: essa teoria não desqualifica o esforço individual. Ninguém está dizendo que o mérito deixou de existir. O que ela revela é algo mais sutil — o mérito nem sempre é avaliado nas mesmas condições. Basta imaginar duas pessoas com a mesma formação, a mesma experiência e a mesma competência disputando um cargo elevado. Uma progride com naturalidade. A outra enfrenta resistências constantes e questionamentos velados. Isso é o telhado de vidro em ação.
Entender esse fenômeno ajuda a compreender por que políticas de equidade, como as ações afirmativas e as cotas, não são privilégios. São ferramentas temporárias para corrigir distorções profundas, históricas e silenciosas. Porque algumas desigualdades não fazem barulho, mas nem por isso deixam de existir.
Por Aparecido Cipriano



