Onomatopeia
O Diário - 12 de abril de 2026
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Figura fonética
Ao abrir um livro infantil ou uma história em quadrinhos, o leitor frequentemente se depara com palavras que parecem ecoar sons do mundo real: o cricri dos grilos, o au-au de um cão ou o miau de um gato. Esse recurso, conhecido na tradição gramatical como onomatopeia, consiste na formação de vocábulos que imitam acusticamente ruídos ou vozes da natureza. A esse respeito, é importante ressaltar tanto a capacidade de aproximar a linguagem da experiência sensorial do leitor/ouvinte quanto a sua função de intensificar a expressividade do discurso.
A onomatopeia atua como um mecanismo de aproximação sensorial entre linguagem e realidade sonora. Expressões como muuu, para representar a “voz” de uma vaca, ou piu-piu para indicar o som gerado por pintinhos, reproduzem, de maneira simbólica, ruídos reconhecíveis. Ao incorporar tais formas imitativas, o texto deixa de apenas nomear um som e passa a evocá-lo diretamente, tornando a experiência de leitura mais vívida e concreta. Nesse sentido, a palavra não apenas descreve o mundo, mas também sugere, ainda que de modo aproximado, aquilo que se escuta.
Outro aspecto relevante reside na capacidade de a onomatopeia ampliar a força expressiva do discurso. Quando um texto menciona o cocoricó de um galo ou o tic-tac de um relógio, cria-se uma imagem auditiva que dinamiza a narrativa e intensifica o efeito estilístico da mensagem. Aliás, o leitor não recebe tão somente uma informação, mas sim uma impressão sonora que contribui para a construção imaginativa da cena. De fato, a linguagem demonstra que pode fazer mais do que dizer. Isso porque, em certos momentos, ela consegue também evocar sons e sensações que ultrapassam a simples nomeação da realidade.



