Paradoxo
O Diário - 15 de março de 2026
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Figura semântica
Entre as figuras de linguagem que mais despertam a atenção, o paradoxo ocupa lugar singular, pois aproxima ideias aparentemente inconciliáveis para produzir um sentido mais profundo. Ao reunir termos que se contradizem na superfície do enunciado, essa figura semântica amplia a capacidade expressiva sobre realidades complexas. A esse respeito, há dois aspectos dignos de nota: a contradição aparente, que estimula a leitura mais atenta, e a sua função crítica e reflexiva diante das experiências humanas.
A contradição aparente estimula uma leitura interpretativa mais criteriosa, pois confere densidade expressiva ao enunciado. O exemplo poético “Para se viver do amor, há que esquecer o amor”, de Chico Buarque, ilustra esse mecanismo ao aproximar viver do amor e esquecer o amor em um mesmo pensamento. O contraste, longe de ser absurdo, sugere que o sentimento autêntico exige maturidade, revelando como o paradoxo traduz experiências humanas difíceis de expressar por meio de formulações diretas.
Outro dado relevante manifesta-se quando a estrutura contraditória expõe tensões presentes na própria realidade social. A afirmação de que “o operário, quanto mais trabalha, mais tem dificuldades econômicas” evidencia esse procedimento. Nessas construções, a linguagem transforma a contradição em instrumento de pensamento ao unir opostos na mesma frase. O paradoxo, portanto, lembra a todos que certas verdades só se deixam compreender quando a própria lógica parece, por instantes, torta e fora de foco.
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie



