Perigo à Vista II – Quando o improviso vira política pública
O Diário - 21 de fevereiro de 2026
Aparecido Cipriano – Especialista em Gestão Pública Municipal - UFSJ
Compartilhar
Em Barretos, persistindo na tecla, a ausência de concurso público há cerca de sete anos não impacta apenas planilhas e relatórios. Ela repercute diretamente na qualidade dos serviços prestados à população.
A administração pública se sustenta na continuidade. Servidores efetivos acumulam experiência, conhecem fluxos internos, constroem memória institucional e garantem planejamento de médio e longo prazo. Quando predominam vínculos temporários para funções permanentes, instala-se o improviso.
Como planejar projetos estruturantes? Como assumir compromissos pedagógicos ou metas sanitárias de longo prazo sem estabilidade mínima da equipe? A rotatividade constante fragiliza o serviço e impede consolidação de políticas públicas duradouras.
Na educação, o prejuízo é ainda mais sensível. O professor precisa planejar o ano letivo, acompanhar ciclos de aprendizagem que podem se estender por até cinco anos e conhecer profundamente seus alunos. Sem continuidade, perde-se o vínculo pedagógico, a avaliação evolutiva e a estratégia individualizada.
Na saúde, o cenário é igualmente delicado. Agentes comunitários e profissionais da atenção básica precisam conhecer o território, as famílias, as vulnerabilidades específicas de cada munícipe. O olhar atento e a proximidade permitem prevenção, diagnóstico precoce e cuidado personalizado. Quando há alta rotatividade, o cidadão deixa de ser acompanhado como indivíduo e passa a ser tratado como número. A ausência prolongada de concurso gera atrasos, sobrecarga de equipes e insegurança institucional.
Serviço público não pode funcionar como plantão improvisado. Ele exige estabilidade, planejamento e compromisso de longo prazo. Quando faltam servidores efetivos, quem paga a conta não é apenas a administração. É a população — que depende de educação consistente, saúde preventiva e serviços contínuos.
Perigo à vista não é exagero. É realidade quando o improviso substitui a estrutura.



