Prosopopeia
O Diário - 24 de janeiro de 2026
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Mackenzie
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Figura semântica
Ao se ler “O sol sorri para a manhã” ou “O vento sussurra segredos”, a pessoa é imediatamente transportada de uma descrição puramente técnica para um campo de forças emocionais onde o mundo exterior ganha consciência. Esse fenômeno semântico não se limita a um ornamento estético, mas ordena a percepção do leitor ao conferir urgência dramática a elementos estáticos do cenário. A humanização do inanimado como recurso de expressividade emocional e a função narrativa da personificação na construção de ambientes vivos são os pilares que sustentam essa dinâmica.
A prosopopeia é uma figura de linguagem que aproxima conceitos abstratos da experiência sensível da pessoa com quem se fala ou para quem se escreve algo. Como se observa nos exemplos “as estrelas piscam” ou “o mar ruge”, os predicados tipicamente humanos são deslocados para sujeitos irracionais. Há, portanto, uma projeção da interioridade do autor sobre o objeto, criando um nexo lógico que facilita a empatia de quem ouve ou lê. Logo, o inanimado é um recurso valioso para essa figura semântica, pois garante que a comunicação extrapole o uso de palavras apenas no seu sentido literal.
A narrativa da personificação é outro aspecto importante da prosopopeia. Em frases como “A cidade acorda” ou “As folhas dançam”, o sentido se constrói a partir da seleção de verbos de ação que detêm, de forma nítida, a capacidade de imprimir movimento e intenção ao ambiente. Nos dois exemplos, há um diálogo invisível entre o observador e o espaço, em que o estado de espírito dos narradores é então revelado. A prosopopeia, portanto, demonstra como a linguagem consegue materializar sentimentos complexos, na realidade física, por meio de seres desprovidos de fala ou vontade.
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Mackenzie




