Quando descansar vira obrigação
O Diário - 21 de julho de 2026
Mari Armani, psicóloga e especialista em psicanálise. Instagram: @mariarmani.psi
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As férias costumam ser imaginadas como um tempo de descanso, mas para muitos adultos elas se transformam em mais uma fonte de pressão. Em vez de alívio, surge a sensação de que é preciso “aproveitar bem”, viajar, produzir memórias e voltar renovado. Quando isso não acontece, aparecem culpa e frustração, como se o descanso nunca fosse suficiente.
Na perspectiva psicanalítica, esse fenômeno não se reduz à organização do tempo, mas revela a atuação de exigências internas. O superego, instância psíquica ligada a ideais e normas, pode hoje funcionar não apenas como cobrança moral, mas como imperativo de produtividade e felicidade. Assim, até o lazer é capturado pela lógica do desempenho.
Além disso, a cultura das redes sociais intensifica comparações e alimenta a fantasia de férias perfeitas, tornando o cotidiano mais difícil de sustentar. O problema não é apenas externo: muitas dessas exigências já foram internalizadas e operam de forma inconsciente, produzindo ansiedade mesmo no tempo livre.
Do ponto de vista clínico, é importante diferenciar o desejo próprio das expectativas impostas. Nem todo momento precisa ser extraordinário, e o descanso não deveria depender de merecimento. Ele é uma necessidade psíquica.
Quando a culpa ao descansar, a dificuldade de “desligar” ou a inquietação no tempo livre se tornam frequentes, a psicoterapia pode ajudar a compreender essas dinâmicas internas e construir uma relação mais flexível com o prazer, o tempo e o próprio desejo.