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Quintais de Barretos

O Diário - 2 de junho de 2026

Quintais de Barretos

KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e ocupante da cadeira 7 da Academia Barretense de Cultura / @profkarlaarmani

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Era século XIX, final da última década, Barretos era uma vila recém-criada, cujas primeiras ruas ainda se abriam e poucas eram revestidas de macadame, primitivo asfalto. As casas de arquitetura colonial, geralmente pintadas a cal, eram construídas em meio a lotes enormes, de onde se formavam imensos quintais de terra batida. Entre uma casa e outra, tábuas de madeira serviam como separação; muros seriam para outro tempo.

Com tanto espaço para quintais, seria perfeito que pomares e mais pomares fossem plantados no coração da cidade: o centro. Assim, famílias garantiriam acesso a alimentos naturais e nutritivos. Ocorre que não era tão simples ter acesso às mudas de fruta, nem mesmo controlar as pragas, muito menos se dedicar à pomicultura. Osório Rocha, memorialista, conta que os quintais no centro não eram bem cuidados e as pessoas alegavam que as formigas “davam cabo de tudo”. Diferente da paisagem rural, em que se tem notícia da rica diversidade frutífera em propriedades como a do coronel Marcolino Osório de Souza, onde frutas e plantas eram usadas como recurso medicinal à população que o procurava como curandeiro. A história mostra, então, que foi necessária muita dedicação por parte das primeiras pessoas que, com admirável determinação, cultivaram frutas e hortaliças no centro da cidade.

A manga talvez seja a mais interessante dessas histórias. As primeiras mudas da região foram trazidas pelo padre francês Germano D’Annecy, o mesmo que criou o relógio do sol em Franca. De Uberaba, levou mudas para Morro Agudo, onde o padre Mansueto Ferrari plantou o primeiro pé de manga, mais tarde espalhado pela região. Em Barretos, há de se fazer justiça à perseverança de dona Mariana, esposa do tenente José Antônio da Silva e Souza, em conseguir plantar mudas do Trevo da Judeia. Também ao major Joaquim Soares de Sá, que de escrivão do cartório passou a se dedicar à agricultura em Barretos, e com muito custo conseguiu formar no meio da cidade um grande pomar. Sua residência erguia-se junto ao córrego São Sebastião, no quarteirão das ruas 12 e 14 e avenidas 23 e 25. 

Um esforço civilizatório ligado ao cultivo da terra, bem no coração da cidade.