Sempre Jesuíno de Melo
O Diário - 30 de junho de 2026
KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e membro da cadeira 7 da ABC / @profkarlaarmani
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“Triste fim de Policarpo Quaresma”, escrito por Lima Barreto, dispensa apresentações. Clássico da literatura nacional, ao final da primeira parte é citado: “No Instituto dos Cegos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada do instrumento parecia sair daquelas coisas todas, da sua tristeza e da sua solenidade”.
A menção ao Instituto dos Cegos deve-se à proximidade daquela instituição ao Hospício Dom Pedro II, ambos localizados em frente à praia da Saudade no Rio de Janeiro. A temática da loucura é central na obra de Barreto e assim conduz o leitor ao destino do personagem Quaresma. O tal “Instituto dos Cegos” é uma referência ao Imperial Instituto dos Meninos Cegos, fundado por Dom Pedro II, em 1854, que, após a instauração da República, passou a chamar-se Instituto Benjamin Constant (IBC).
Embora o romance de Lima Barreto seja ambientado no final do século XIX, no Rio de Janeiro, o livro foi publicado pela primeira vez em 1911. Nesta época, assim como em anos anteriores, o IBC já era parte importante da cidade carioca e dos avanços da educação brasileira. Afinal, tratava-se, sobretudo, de uma instituição de ensino para cegos; como evidencia a referência aos violinos presente na obra de Barreto.
Neste começo do século XX, portanto, foi diretor do Instituto o professor e agrimensor Jesuíno da Silva Melo, nome citado na memória institucional do IBC e no site do Ministério da Educação do Brasil. Seu primeiro mandato foi entre 1902-1906 e depois entre 1909-1920. Ocorre que, antes disso, Jesuíno viveu em Barretos e foi o primeiro historiador da nossa terra, sendo o responsável pela coluna “Tradições de Barretos”, no jornal O Sertanejo – primeira publicação sobre o passado de Barretos. A história da cidade nasceu da sua caneta-pena. Ao IBC ele foi ainda mais importante, pois ali criou a Biblioteca Louis Braille, com um acervo de 300 livros, e depois solicitou ao governo a criação do cargo de leitor de “livros de tinta” no quadro funcional do Instituto.
O mínimo que a história de Barretos pode fazer por Jesuíno é sempre enxergá-lo em seus mínimos detalhes, até mesmo em clássicos como o de Lima Barreto.



